Dia a Dia

Nem Precisa Ser Na Quaresma

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

24 de março de 2021

Como fumaça evaporando no ar, foram desaparecendo os causos que se ouvia durante a Quaresma. Vultos de lençol branco correndo, choro ou risadas de criança, barulho de panelas e pratos na cozinha, pessoas dizendo “não passe a noite naquele lugar, lá é mal assombrado desde que aconteceu ali aquela morte, não anda a noite na Quaresma que você vai topar com alguma coisa estranha”.

Dia desses, me veio à mente um causo que ouvi há muitos anos de um saudoso freguês: Seu Dino, ao chegar à Sapataria, pedia licença, entrava para de dentro do balcão, sentava no banco destinado aos fregueses e seus casos do outro mundo já eram esperados. Sorriso largo, voz firme, com sua notória facilidade em contar, divertia todos pelo impossível de suas histórias.

E pelos vários causos que ouvi, contados por ele, e também por estar na Quaresma, esse merece registro:

Lá perto de meu sítio, depois da morte de seu Quirino e sua esposa, ele, por ter sido um homem mau, as terras foram partilhadas, e cada filho pegou seu pedaço de chão. Construíram sua casa, e ninguém quis a sede do velho casarão que ficou abandonado, dizendo ser mal assombrado devido às maldades que o pai ali praticava. E de fato eu sou uma testemunha viva que ele é assombrado. E lá, num certo dia, eu corajoso como sou, resolvi ver de perto se de fato lá tinha assombração.

Companheiro nenhum topou ir comigo, o jeito foi enfrentar sozinho. Cheguei lá com o sol sumindo, entrada pra sala sem porta com uma baita caixa de maribondos acima do portal e na ponta do telhado já quase desabando uma coruja vendo minha presença desandou a piar. Ali na sala coloquei a lamparina num caixote apodrecido pelo tempo, forrei o chão com uma velha coberta, encostei na parede de frente para a porta, e me observando pelos caibros enfumaçados, enormes ratos, com milhares de baratas se escondendo nas largas frestas do que restava de assoalho.

Com a chegada da noite, o cansaço do dia e ouvindo um barulho de água de um rego nos fundos do terreiro comecei a cochilar. Olha gente, (mostrando os cabelos do braço todo arrepiado), juro pela alma da mamãe que graças ao bom Deus está no céu. De repente começou uma agitação dos diabos, sem ter nenhuma criação no terreiro, patos grasnavam, galo cantando fora de hora, galinhas cacarejavam, pintinhos e angolas piando, relincho de cavalos, chiado de carro de bois, bezerros berrando,vacas mugindo, e porcos a fucinhar fazendo um alvoroço danado.

Dentro de casa era lençol branco voando, caveiras rindo surgindo nos cantos das portas e janelas, uma mulher vestida de preto sem mostrar o rosto com uma rodilha de pano branco na cabeça, segurando uma criancinha contra o peito chorando, portas e janelas batendo, pela porta aberta vi a porteira iluminada, velas acesas andando pelo ar, uma carroça chegando mais nunca que chegava parecendo ser puxada por um grande bode preto com um enorme chifre, e um homem com uma grande capa preta em cima dela.

Pra mim esse homem era o Quirino. Meu pai, que o bom Deus o tenha na santa glória, sempre falava: homem ruim ta ali. Certa vez ele abusou de uma mocinha, empregada de sua fazenda e quando ela apareceu com a criança, ele mandou um de seus capangas da um sumiço nela e a criança. Mas voltando ao casarão assombrado, eu ali sentado sem pernas pra levantar, o jeito foi fechar os olhos, tirar o terço do bolso, e rezar pra Nossa Senhora do Socorro que me ajudou a pegar no sono.

Só fui acordar já com o dia amanhecendo, com a roupa cheia de pulgas, e sentindo um mau cheiro de morcegos coalhado nos caibros do telhado. Bati a camisa para livrar das pulgas que me assaltaram durante a noite, e logo pela manhã, vim até a cidade, contei tudo que se passou para o padre… Ele ficou de ir lá dar uma benzida no casarão, mas acho que até o padre ficou com medo, porque até hoje não se tem notícia dessa benção.

Enfim, os anos se passaram, os fantasmas de outro mundo foram substituídos não mais por assombração, mas por sustos mais modernos, pelos perigos dos vivos, pela calada da noite, ou à luz do dia, e nem precisando ser em Quaresma! É o tempo passando e a gente “Memoriando!