Dia a Dia

Não olhe pra cima

DAGOBERTO ALVES DE ALMEIDA

8 de janeiro de 2022

É prerrogativa da arte interpretar nossas esperanças e angústias. Recentemente o filme, Não Olhe Para Cima, considera a possibilidade da atenção pública ser desviada da destruição do planeta por políticos inescrupulosos e empresários gananciosos interpretados por um elenco estelar, como a talentosa Meryl Streep. O resultado é um riso nervoso nessa paródia sobre o que já vem ocorrendo com o planeta por meio do negacionismo e da degradação do meio ambiente em um processo destrutivo que só faz aumentar nesses tempos de pandemia, “enquanto a boiada passa”. Já no filme Dr Fantástico de 1964 o genial cineasta Stanley Kubrick criou a possibilidade de uma terceira guerra mundial com o engraçadíssimo Peter Sellers interpretando um militar megalomaníaco que controla um arsenal nuclear. Por sua vez, o filme Copenhagen retrata o encontro do físico judeu-dinamarquês Niels Bohr com o alemão Werner Heisenberg em 1941, no qual se dramatizou o interesse do abominável regime nazista no desenvolvimento de uma ciência “não judaica”. Nessas alegorias a ciência é um coadjuvante que não pode, em absoluto, ser desconsiderado. De volta à realidade, olhando para cima, o fato é que tanto a educação quanto a ciência fornecem instrumentos confiáveis para desanuviar esse ambiente peçonhento de fake news e estupidez generalizada nos quais nos encontramos.

Que a vida não imite a arte, pois que a ciência não é apolítica, não está imune e nem mesmo isenta das consequências de seu uso. Afinal, se a falta de educação de qualidade pela ignorância e miséria decorrentes é um veneno lento, a ciência sem ética é uma arma de devastação em massa. Dos muitos exemplos que a história nos traz vale considerar a energia nuclear com sua promessa de energia limpa e inesgotável, mas que ainda representa imenso problema ambiental e potencial destrutivo como já ocorreu quando das explosões atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki no final da segunda guerra mundial.

O escritor britânico George Monbiot declara que “somos uma sociedade altruísta, mas governada por psicopatas”, uma vez que ambientes tóxicos – quanto pior melhor – favorecem o protagonismo de personalidades tóxicas. Haja vista a destruição de instituições democráticas por governos ditatoriais, o esfacelamento de blocos econômicos e a exponencial degradação do meio ambiente. Na contramão dessas retrocessos avanços civilizatórios como a separação entre estado e religião, o respeito às liberdades individuais independentemente de etnia ou gênero, o direito à educação e à liberdade de ideias persistem como baluartes da civilização. De fato, assim como a ciência a democracia é o único modelo que se constrói pelo compartilhamento de ideias para a produção de leis, físicas ou políticas, cuja aplicação demanda contínuo aprimoramento. Qualquer outra opção é brutal cerceamento de liberdades, sejam elas políticas, religiosas, artísticas ou intelectuais. Não sendo a ciência um dogma que exige cega aceitação e, portanto, exclusão daqueles que não advogam a mesma ideologia ou credo, ela se baseia na proposição de hipóteses testadas com rigor metodológico e no compartilhamento de resultados independentemente das eventuais crenças religiosas ou políticas de seus pesquisadores.

A construção de narrativas coletivas na criação e transmissão de conhecimento racional e verificável, colaborativo e norteado, principalmente por princípios humanísticos, já ocorreu em outras ocasiões ao longo da história como quando as artes e as ciências se uniram no Renascimento do século XV para dissipar as trevas da idade média, culminando dois séculos depois no desenvolvimento do método científico no período conhecido como Iluminismo. Como bem salienta Monbiot, a união do desenvolvimento intelectual com o ético, da razão com a empatia, tem produzido iniciativas como a Agroecologia, abordagem na qual a produção agrícola não antagoniza o meio ambiente; a Economia Circular conceito no qual resíduo se transforma em insumo produtivo; a conscientização dos riscos de um crescimento populacional que extrapola os limites de sustentabilidade do planeta e; o movimento minimalista que acena com a redução consciente do consumo de bens e produtos. Manifestações colaborativas apoiadas pela ciência com lastro humanístico cuja combinação pode se apresentar como o mais eficaz instrumento para prosperidade, redução da desigualdade, justiça e fortalecimento da democracia.

Mesmo porque, educação, ciência, arte e o livre exercício da espiritualidade não são apenas direitos e necessidades, mas fundamentos democráticos de um povo, daqueles que são capazes de olhar e ver, não apenas para cima, mas para dentro de si próprios.

PROFESSOR DAGOBERTO ALVES DE ALMEIDA – ex-reitor da Universidade Federal de Itajubá -UNIFEI – mandatos 2013/16 – 2017-20