Dia a Dia

Não é o que parece ser

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

17 de junho de 2021

A seguidora da blogueira ainda estava em estado de choque. Ninguém acreditava no que tinha acontecido. O som distante do latido de um cachorro quebrou o silêncio de morte. O soluço da mãe, o choro alto do pai e o barulho dos tijolos sendo quebrados formavam uma triste melodia. As buzinas ao longe sinalizavam que a vida dos outros continuava.

O terço comprido e as palavras melancólicas eram cortadas pelo som da colher de pedreiro. Um homem de camisa amarela confeitava os tijolos que se erguiam como uma cortina de pedra e cimento.

A seguidora olhou de esguelha e viu um lindo arranjo de flores ao lado. Lembrou de sua própria vida conjugal, na delicadeza do esposo que durante os vinte e cinco anos de casados ainda celebrava o amor com rosas vermelhas. E pensar que no último dia dos namorados desejou o passeio de barco que a blogueira postou nas redes sociais.

O que significaria aquela flor para quem a deixou ali? Amor? Amizade? Gratidão? Provavelmente, saudades eternas. Apertou os olhos e percebeu que era um arranjo sem perfume, sem vida. As flores eram de plástico, mesmo assim guardavam seu significado.

O homem de camisa amarela continuava remexendo a vasilha de cimento. O sol das onze horas castigava sua cabeça cabeluda. A comoção das pessoas não permitia que ninguém fosse embora até que ele terminasse seu trabalho.

A seguidora se perguntava como aquilo poderia ter acontecido. A vida dela parecia perfeita, pelo menos era isso que mostrava nas redes sociais. Um casal lindo, uma casa linda, um trabalho lindo, carros lindos, cachorros lindos, vinhos lindos, viagens lindas, tudo lindo. Não dava para acreditar que tudo acabaria daquela forma. Ela era uma coaching de relacionamento, influenciava mulheres na vida a dois e as orientava a obterem sucesso ao lado do parceiro.

Só que na sua intimidade não havia e nunca tinha havido sucesso. O que havia era um marido violento e abusivo que não suportou as vitórias da esposa.

O homem de camisa amarela e cabeça cabeluda sepultava mais uma vítima de feminicídio. A seguidora chorava não só por aquela mulher, mas também por tantas outras vítimas da violência doméstica, e por seus pais, filhos e netos.

O sol escaldante do fim da manhã provocava gotículas de suor na testa do homem com a cabeça cabeluda. A seguidora percebeu que seus cabelos se moviam vagarosamente. Aquilo não era cabelo natural. O coveiro usava uma peruca! Cabelo sem vida e sem perfume, mas que guardava o seu significado.

De repente, o silêncio foi quebrado por um funk vindo de um celular “Você e sua amiguinha qué subir na minha motinha?”. Toca a segunda vez: “Você e sua amiguinha qué subir na minha motinha?”. E a terceira: “Você e sua amiguinha qué subir na minha motinha?”. Finalmente o homem de camisa amarela e de cabeça cabeluda atendeu o telefone e disse num estrondo: “Estou trabalhando”.

Ao levantar os olhos para se desculpar, a seguidora percebeu uma sombra no seu olhar. Nem a camisa amarela nem a peruca sem noção foram capazes de disfarçar o olhar esculpido pela dor alheia que presenciava diariamente. Ele se confundia com a cortina de pedras que construía.

O toque engraçado do celular talvez fosse para ludibriar a morte, mas ela continuava ali, guardando o seu significado.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com