Dia a Dia

Não custa nada

DÉCIO MARTINS CANÇADO

1 de junho de 2021

Há entre nós um pensamento recorrente, típico do mundo ocidental, que a vida é feita de ‘vencedores e perdedores’, de alegrias e felicidade, dores e sofrimentos, porém, isso passa a ser muito relativo já que depende do ângulo que se veem os acontecimentos, da filosofia de vida da pessoa, da visão histórica e holística que se tem do presente, passado e futuro. A sabedoria, a aceitação e o discernimento vêm até nós através do tempo e do que acontece conosco. Os antigos já diziam: “vivendo e aprendendo”.

Como a ‘inteligência’ e a ‘emoção’ comandam nossa vida, nossas ações e reações, vamos procurar entendê-las melhor. A primeira é algo difícil de medir, pois ela é diversificada, sendo mais evidenciada numa pessoa do que em outra, dependendo de cada um. Por tradição, nossa cultura valoriza demais a inteligência “lógico-matemática” – portanto, ser inteligente, para a maioria das pessoas, está associado a um desempenho muito bom em áreas ligadas a este tipo de facilidade, mas o fato de não termos habilidades em uma determinado assunto não significa que sejamos incapazes de realizar outras coisas. Conhecemos pessoas de sucesso na vida empresarial, artística ou pessoal que não eram consideradas boas em Matemática ou Português (Gardner).

Hoje sabemos que a ‘fórmula para o sucesso’ na vida é uma combinação bem temperada de pensamento racional agudo com controle e autoconhecimento emocionais (Goleman).

“O amor à família, a si mesmo, ao próximo, à ecologia e aos negócios, é que nos impulsionam a buscar mudanças em nossas vidas, mas é importante que essas mudanças estejam enraizadas na preocupação com a dignidade, a integridade, o valor que damos ao próximo. Este é o alicerce, a base sobre os quais devemos construir uma ‘vida significativa’.”

Toda mudança pode ser incômoda e até ameaçadora, mas ela assusta mais quando as pessoas não possuem um alicerce sólido onde se apoiar. Por isso, a necessidade de estarmos buscando, sem cessar, conhecimentos novos, informações diversificadas. Se as pessoas tiverem uma base sólida de valores, elas estarão mais bem equipadas para se abrigarem de qualquer ‘tempestade’. Valores transcendentais como a Verdade, Bondade e Sabedoria, juntamente com valores éticos de Respeito, Integridade e Confiabilidade dão a dose necessária de confiança para que as mudanças ocorram, sem crise e sem trauma. Os desafios e as dificuldades são o que tornam a vida válida e interessante. É importante lembrar que nunca teremos todas as informações necessárias para tomarmos as decisões corretas – mas é preciso buscá-las, sempre.

A psicologia tem nos ensinado, através da terapia cognitiva, que devemos nos livrar de nossos pensamentos e sentimentos negativos. O psicólogo Steven Hayes, em seu livro “Saia de Sua Mente e Entre em Sua Vida” rompe com este método e vem nos dizer que: “Muita gente tem um conceito distorcido de felicidade. O mais comum é vê-la como ausência completa de dor, de sofrimento e como uma sequência de momentos nos quais a pessoa se sente sempre bem. É fácil preencher a vida com uma série de episódios efêmeros de bem estar, como sair com amigos, fazer compras ou beber um bom vinho. São diversões que podem trazer satisfação momentânea, mas na manhã seguinte a vida não estará melhor e não haverá como evitar que aconteçam coisas ruins. Todos sabem que um dia vão morrer, todos se lembram de algum erro que cometeram, de seus dramas, contradições ou doenças. A diferença entre o homem e outras criaturas está na capacidade que ele tem de usar suas habilidades cognitivas para remoer os erros e infortúnios do passado e temer as incertezas do futuro. Por isso, o normal é sentir dor e sofrer, mesmo que eventualmente.”

Parece estranho este tipo de pensamento, mas, entre inúmeras reflexões sobre o tema, ele nos fala a respeito de “que tipo de felicidade se deve buscar”: “A pessoa deve definir o que realmente quer da vida, em longo prazo, descobrir quais são seus valores e viver de acordo com eles. Isso é ser feliz. Para alguns, significa ajudar os outros e sentir-se útil para a sociedade, para outros é estar junto da família, ou realizar um trabalho rentável, e assim por diante. De nada adianta querer se sentir feliz o tempo todo… Uma situação aparentemente prazerosa pode ser destrutiva e não acrescentar nada, em termos emocionais. O problema é que nosso conceito de felicidade está ligado, muitas vezes, a emoções de curto prazo, mas essa correlação nunca foi verdadeira”.

Não custa nada buscarmos mudanças. Elas podem até ser incômodas, mas, num mundo dinâmico e cada vez mais exigente elas são, na realidade, necessárias.