Colunas Dia a Dia

Na Porrada

Por Adelmo Soares Leonel

18 de abril de 2020

Contam as más línguas que, em priscas eras, quando o fio de bigode se constituia num documento confiável, lás prás bandas do Arraial Novo morava um casal de fazendeiros, onde o “home da casa era a muié!”. E como era! O véio cortava um riscado danado sob a guampa da véia, sem qualquer chance de opinar nos negócios ou mesmo palpitar no sistema de criação das duas filhas, batuta severa nos mínimos detalhes familiares. Ele abaixava a cabeça e, sem iniciativa de enfrentar a mandona, acatava suas decisões, apático, qual um cachorrinho pelos cantos do casarão. Na única vezinha em que ele tentara contestá-la, o rebenque comera-lhe no lombo deixando um vergão teimoso, lembrança vexatória da inutilidade das suas calças e da barbinha rala.

E as meninas cresceram estragadas pelo exemplo materno, convencidas que o normal no mundo era mesmo a mulher mandar no marido.

Numa tarde modorrenta, preguiçosa e quente, eis que apareceu na fazenda um rapagão numa mula vistosa e seu olhar encontrou de modo definitivo o olhar da mais velha. Dali ao namoro e pedido de casamento foi um nadinha de tempo! Tudo sorriso, beijoquinhas roubadas, carícias furtivas, felicidade, promessas eternas de amor, arrulhos de fogosos pombinhos . Perto do futuro genro, a sogra se comportava como a mais doce das santas do paraiso, ocultando o temperamento dominador para não assustá-lo e ele, engambelado pela tramóia, julgou inverídicos os “mexericos” da brabeza dela.

Casaram-se e se instalaram na propriedade do esposo, à légua e meia de distância.

Dois dias ele ficou por conta da lua de mel, rangendo o estrado da cama, tirando o desconto do que não lhe fora possível fazer enquanto solteiro, sob a cerrada vigilância da sogra.

No terceiro, teria de voltar ao trabalho pois a despesa agora aumentara. Amansador de burro, gastou o dia inteiro arregimentando a tropa nas vizinhanças e, à noite, o curral tava cheio de animais inquietos, deseducados. A mulher implicou:
-Cê num vai mexê cum isso não! Num quero marido aleijado pro mode sê pisoteado por essas bêsta.

-Uai muié! Eu sô domadô e cê sabia disso. Vai metê a cuié nas suas panela e para de enchê meu saco!

E deu o caso por encerrado. Ela, no entanto, achava-se no direito de dar a última palavra:

-Amanhã cedo a gente vê!

Madrugadinha, ele se levantou disposto, rumando para o curral, esporas arrastando-se, barulhentas. Separou um burrão dos mais agitados, selou e, quando pulou em cima, a mulher entra no cercado, berrando, igualzinho à mãe:

-Pó descê daí e tratá de arranjá outro serviço! Daqui num saio, só se ocê passá por cima de mim!

Dito e feito.

O marido soltou o cabresto do moirão, segurou firme nas rédeas e sangrou a anca do bicho que, por sua vez, não se fez de rogado: bufou, mordendo o freio, deu-de-bunda e arremeteu-se prá diante, corcoveando, zuando, levantando um poeirão doido. Se a “patroa” não é esperta e pula nas tábuas da cerca ia ser retirada aos pedacinhos debaixo do tal. E quanto mais o animal protestava, mais o domador batia, judiava, xingava:

-Aqui mando eu. Num dianta querê impombá qui eu te corto no couro!

A briga durou uns quinze minutos. Finalmente, arquejante, esfalfado, listras de sangue nas ancas e no pescoço, assumindo, impotente, a derrota, o burro se entregou e quedou-se ante a brutalidade do homem. Este apeou, deu um tapão na cara do animal, testando a possibilidade de uma última reação, que não veio, e se deu por satisfeito.

Virou-se para mulher assustada e veio chegando, devagarinho, estalando a chibata, na pose de quem iria continuar o serviço:
-Bão, o burro tá pronto. Agora nóis é que tem de acertá os pontero e decidi quem qui é o macho aqui desse galinhero. Minha preposta é a siguinte: eu canto no raiá do sór, ocê cacareja e bota, ocê aceita? Se aceitá, bem. Se num aceitá, azá o seu qui vai sê ansim tamém, só qui no coiceio, no sarto da butina e no puxão de orêia! Tá acertado?

Descabelada, suja, agarrada no pau da cerca, olhos deste tamanho!, ela conseguiu murmurar, medrosa, subjugada:
-Tá. Num carece batê qui já intindi!!!

Sábado próximo, continuo a crônica com a história da outra filha.