Colunas Dia a Dia

Na Porrada (2)

25 de abril de 2020

Pois é!

Conforme o combinado na crônica da semana passada, voltamos aqui hoje para completar o caso das duas filhas da muié braba lá do Arraial Novo. A primeira se estrumbicou no chicote da amansador de burro e a segunda… bem…

A segunda filha e mais nova se inclinou no enrabicho dum rapaz, herdeiro de terras na vizinhança, honesto, trabalhador, um bom partido que fazia o gosto dos pais dela ( o que importava, realmente, era a opinião da sogra, porque como eu já disse, dominava completamente o marido, um zerão à esquerda ).

O moço, apesar de apaixonado, sabedor do sistema matriarcal vigente e da semelhança dos gênios da filha e da mãe, cismava em adiar o casório com medo de se repetir a história e se transformar no molambo humilhado do sogro. O tempo foi passando e chegou uma hora em que não dava para protelar mais: era assumir ou largar de vez e o coração falou mais alto. Noivou e marcou a data.

A festança prometia. A fazenda se encheu de rebuliço num mutirão descarnando novilhos, matando uns capados, quitandas, valetas de churrasco, caixas e caixas de bebida só chegando, enfeitando um quiosque pro conjunto no barracão que virou salão de baile. Coisa farturenta, de arrombar o comércio!

Enfim, o dia.

Formou uma fila de légua a cavalhada, com o noivo na frente e a noiva lá atrás, tudo enfeitado desde as arreatas prateadas e barulhentas até as roupas reservadas para tais ocasiões, em direção à cidade onde seria realizada a cerimônia.

Na volta, os dois pombinhos vinham abrindo caminho na frente e o povaréu no rasto, espocando o foguetório, barrigas vazias, apertando o passo para chegar depressa na festa. Na encruzilhada das duas fazendas, o noivo trancou a mão nas rédeas do animal da noiva e o arrastou no rumo da sua, onde iriam morar. A procissão seguiu prá comilança.

Surpresa com a decisão do marido e querendo participar da recepção, a moça deitou uma falação danada:
-Pode sortá essas rédia qui eu tô mandano. Nóis agora vai é prá festa qui minha mãe apreparô! Anda digeiro! Sorta a rédia! Ô home, num iscuitô?

Ele nem sequer virou a cabeça, trotando firme e decidido. Ela reclamando e xingando. Xingando e reclamando. Até que adentraram a porteira da propriedade e chegaram à sede. Um cachorrão lustroso e bem cuidado se aproximou aos pulos das suas botas , misturando seu latido com o falatório da esposa.

– Num quero sabé de baruio! Quieta Tigre!

O Tigre não quietou, tal a sua felicidade e afeição ao dono.

Tomou um tiro seco, a queima roupa no meio da testa e morreu sem tempo de estrebuchar.

A mulher se assustou mas logo se recompôs e continuou a contar prosa.

Um galinho cantou na cerca e “PAM” caiu durinho prá trás, com os dois pés esticados.

O proseio reclamativo diminuiu muncadinho já num tom meio temeroso.

Quando a mula desassossegou no desarreio, querendo se ver livre depressa dos atavios, tomou também um tirambaço na nuca e dasabou.

Ele pegou a noiva pelo cangote, levantou-a alguns centímetros de chão e, nariz a nariz, perguntou:

-Cê intendeu?

E ela, mansinha:

-Intindi!

Três dias depois, a sogra, não se sabe como, tomou ciência do fato e subiu nas tamancas. Bafejando raiva, passou a mão num fuêro de carro e cobriu no galope o caminho entre as duas fazendas, disposta a colocar as coisas nos seus devidos lugares. Sorte dela que o genro se encontrava longe, curando um gado na invernada e encontrou só a filha:
-Cum efeito, minha fia! Inté parece qui num puxô prá mim?

Apavorada, a moça vai empurrando a véia porta afora, tocando-a de casa:

-Vai imbora, mãe, qui o trem é feio e num quero qui o pai fica viúvo! Muié aqui nu tem vêiz e ele inté já falô qui num gosta da sinhora!

A megera retornou cuspindo fogo e, chamando o marido, exigiu dele que fosse procurar o genro e consertasse as coisas de “home prá home”.

Na tarde seguinte, ele foi. Encontrou o genro na varanda e foi recebido com efusivo abraço e um jantão especial. Ante a insistência para que ali posasse aquela noite, agradeceu mas “a muié fica braba si num vortá hoje”.

O genro chamou o sogro em separado e, durante umas duas horas, encheu a cabeça dele : “O macho é qui manda”, “O galo fica pro riba da galinha”, “Si fraquejá, elas amunta”, “Muié mandona, a gente trata é no coice” etc. etc.

Cheio de coragem, resolveu pernoitar e, no outro dia, agradecendo muito a nova visão de vida, se despediu. No trajeto de volta, armou-se de um porrete de aroeira e a sua primeira providência ao transpor a soleira de casa foi dar uma paulada na cacunda da véia. Ante a tentativa de reação, outra mais bem dada.

-Ficô doido, meu véio. Pro mode qui tá bateno ni mim?

-Muié pra apanhá num carece de expricação, mais ocê sabe pruquê tá apanhano. De hoje a um mêis, uma sova pro dia inté aprendê quem é o home aqui. Dispois, uma sova pro semana prá mode num esquecê!

E prostrou a mulher na coça!!!

 

Adelmo Soares Leonel