Dia a Dia

Mulheres que apoiam outras mulheres

POR ARLETE SALANTE

19 de fevereiro de 2021

Não é nenhuma novidade que a cultura machista é reproduzida entre as mulheres com jogos de competição, agressividade e hostilidade entre si. Umas tentam cortar as asas das outras que voam, de forma explícita ou velada. As críticas destrutivas e condenatórias evidenciam a tendência de caráter à inveja, raramente reconhecida.

Onde seria oportunidade de inspiração com aquelas mulheres que evoluem, existe a necessidade absurda de comparar-se, colocar-se superior por meio das desqualificações, encobrindo as próprias dificuldades existenciais em máscaras julgadoras. Como se o brilho de umas ofuscassem as outras. O reflexo é visível também no mercado de trabalho.

No “palco” do mundo profissional e político se vê reconhecimentos justos e injustos, assim como nas indicações para cargos e vagas, que mostram a dificuldade das mulheres apoiarem outras mulheres. O apoio de elogios na frente e críticas por trás compõe as puxadas de tapete que todas sofrem. Da mesma forma, nos elogios e reconhecimentos no discurso, mas sem valorização econômica, permanece evidente a cultura do patriarcado.

A cultura machista é vivida por ambos os sexos em diversos ambientes, a começar pela família, berço da educação para o patriarcado. As mulheres são metade vítimas, metade cúmplices – diz o filósofo existencialista Sartre. Concordo plenamente com ele, uma vez que sempre esteve a cargo das mulheres educar os filhos e grande parte os educou de modo machista. O modo de viver entre as mulheres precisa ser compreendido com humildade e honestidade, sob pena de continuarmos por mais tempo nas estatísticas de desigualdades sociais, econômicas e profissionais, sem falar dos alarmantes números de violências físicas ou verbais, estupros e feminicídios.

Além da cultura machista, há aspectos psicológicos a serem compreendidos quando as outras são sempre colocadas no lugar de rivais e não de aliadas. Marcas da constituição psicológica inicial, nas relações com a matriz materna e familiar podem ser a origem da desunião entre as mulheres. Questões a serem trabalhadas em psicoterapia em relação à mãe, às irmãs, às tias, às avós etc.

Apoiar o crescimento das outras não irá impedir o seu. No entanto, não apoiar o crescimento das outras revela suas próprias frustrações, que se projetam numa oposição gratuita, que mantém o comodismo e até um vitimismo (ainda que inconsciente).

A verdadeira contribuição das mulheres ao planeta ainda não aconteceu – diz o criador da Ontopsicologia, Antonio Meneghetti, na obra “Feminilidade como Sexo, Poder e Graça” (2013). Para o autor, mulheres e homens são de igual importância e a humanidade precisa da contribuição feminina. Portanto, as mulheres apoiarem mulheres não é ideologia de esquerda ou direita, mas uma necessidade planetária, que depende do amadurecimento psicológico de mulheres e homens.

Quem são as mulheres que apoiam outras mulheres? Certamente as que estão buscando sua evolução, que olharam para dentro e compreenderam que sua maior inimiga reside dentro de si, pois fora se fortalecem unindo-se com as outras que também optaram por evoluir.

Sem ingenuidades! A união e o verdadeiro apoio estende-se para aquelas que igualmente querem crescer. A parcela que permanece fazendo os triviais jogos e competições vazias está contra si e contra todas as outras. Para sair desta autossabotagem, é preciso o amadurecimento psicológico, um processo de individuação que acontece por um desejo consciente de autoconhecimento, fazendo cair as diversas máscaras que se construíram na psique feminina.

ARLETE SALANTE é psicóloga.