Dia a Dia

Minha Garota, Meu Pai…Pai…

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

4 de novembro de 2021

Numa olhada rápida a selfie estava perfeita, uma moça com seus vinte anos de pele, de cabelo e de corpo em plena forma. A roupa também não precisava de retoques, algo ente o clássico e o sexy, sem ser vulgar.

Se não fosse o pano de fundo da foto, com certeza, ela receberia incontáveis curtidas. Mas, completando a cena registrada pela Influencer americana, ao fundo estava o pai, morto dentro de seu caixão.

Antes de ser cancelada, ela só teve tempo de argumentar que o pai sempre a apoiou, e de onde quer que ele estivesse pensaria: ”Essa é minha garota”. Logo depois, foi lacrada, taparam a sua boca e cortaram sua língua e seus dedos, não podia dizer mais nada, pelo menos nas redes sociais.

Lembrei-me de um quadro humorístico criado por Chico Anysio nos anos 80, nele um pai coruja incentivava as atitudes sem graça de seu filho, interpretado por Castrinho. E finalizavam com um bordão, o pai dizia: “Meu garoto” e o filho respondia: “Meu paipai”.

Talvez por ter validado “todos” os comportamentos da filha, mal sabia o pai que seria alvo de um excesso cometido por ela, nunca imaginaria enfeitar uma selfie abotoando o seu lindo paletó de madeira. Minha garota…meu paipai.
Atualmente, não se pode cometer excessos ou deslizes. É claro que não estou falando de disseminação de notícias falsas pelas redes sociais, silenciá-las é uma maneira de demonstrar que não somos coniventes com a situação.

Estou falando de nossas escorregadelas do cotidiano, como falar ou fazer alguma bobagem acreditando que o mundo as enxergarão com bondade.

Se quem não é influenciador digital tem a obrigação de seguir a cartilha do bom comportamento, imaginem aquele que capitaliza a sua imagem para vender um estilo de vida.

Confesso que quase engrossei o coro para criticar a influencer americana, mas essa crônica tomou forma e conversou comigo, questionou-me se o meu rápido julgamento não me faria mais narcisista do que o rótulo que eu queria presenteá-la?

Por isso, mais uma vez, convido vocês a refletirmos sobre os efeitos nocivos dessa profissão delirante tão desejada por alguns. Já pensaram em sofrer reprovação sob o holofote das redes sociais? Já imaginaram a angústia de estar nas mãos de algoritmos?

Se por um lado existe o cancelado, por outro temos nós, os canceladores. Somos consumidores exigentes que criamos uma imagem purificada do nosso seguido. Ele deverá ser totalmente coerente com a forma de vida estampada nas redes sociais. Por isso o escolhemos, é o mínimo que ele nos deve.

Daí aparece um caixão no meio de uma selfie, e pensamos que não era bem isso que queríamos, já não nos identificamos com a pessoa e, como investidores frustrados, queremos descontar o nosso dinheiro. Tamo junto no ódio.

Ficamos com raiva porque o influencer deixa de ser congruente com a nossa fantasia de que as pessoas são perfeitas e não erram. E, no primeiro deslize, o afastamos por encontrarmos nele algo insuportável de nós.

Assim como não se pinta um quadro com apenas uma tinta, também não é possível se olhar para uma pessoa com apenas um filtro. Todos somos essa louca mistura de luz e sombra, também cometemos deslizes, só que sob a penumbra de uma vela.

E por falar em profissão, lembrei-me de outro Chico que também me alegrou muito na infância. Se fosse escolher uma outra profissão, escolheria a estampada no sobrenome do meu Vô Chico, ele era o “Chico Tacheiro”, que, na verdade, nunca fez tacho, mas fumo. Eu seria a Patrícia Tacheira, faria tachos para promover misturas adoráveis e não silenciar as pessoas que contrariam a minha expectativa, acredito que o meu mundo ficaria muito maior e bem melhor.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com