Dia a Dia

Minha experiência com a escrita

10 de junho de 2021

Não existe nada de glamouroso como eu idealizei. Nada de música clássica, vinho tinto , casa bucólica e inspiração, não é assim que nascem os meus textos.

Foram gestações longas, o carrasco que mora em mim não deixava que meus filhotes primogênitos viessem ao mundo, era só colocarem a cabecinha pra fora e eram assassinados na lata de lixo ou na lixeira do computador.

Assim como uma gestante desgastada pela demora do parto, sentia-me atormentada por minhas ideias que queriam sair, mas eram abortadas pela autocrítica.

Gosto de ler e penso que por isso adquiri o prazer por escrever. Cortázar, um grande contista argentino, compara a escrita com uma luta de boxe e completa que o romance vence o leitor por pontos e o conto por nocaute.

Como adoro ser nocauteada por minhas leituras, aprecio textos rápidos, surpreendentes e precisos como são as crônicas e os contos.
Na minha aventura literária, escolhi escrever textos curtos por motivos pragmáticos. Segundo o Professor Google, a crônica ( que vem de cronos) é um gênero literário em que o escritor faz um recorte temporal sobre uma situação do cotidiano (banalidades) e aponta sua percepção pessoal sobre aqueles fatos.

Para uma principiante na escrita, essa mistura de escrever sobre banalidades e não se submeter ao crivo de tempo é bem confortável. Em regra, o jornal que traz a crônica hoje, já foi para o lixo amanhã. No caso das redes sociais, o post interessante de agora é substituído por outro mais legal em poucas horas, e o texto daquela semana já era.

E nessa peripécia da escrita venho descobrindo um monte de coisas.

Aprendi que ser original é ter um olhar único diante de temas aparentemente esgotados pela literatura. Ainda é possível falar sobre o amor e a morte de uma forma ímpar. É nossa experiência pessoal que vai dar o tom singular para os textos, e de repente pode até sair algo bem original.

Entendi que o leitor não é nada bonzinho, muitos vão ler os textos com muito critério. Poderão criticar os temas desenvolvidos, a forma como foram abordados e as imprecisões gramaticais( para alguns isso retira toda qualificação de alguém para escrever). Mas, parafraseando Drummond: Escrever se aprende escrevendo. Acredito que não exista melhor escola para um escritor do que a obrigação de entregar um texto semanal para o jornal.

Aceitei que não sou e nunca serei uma Clarice Lispector e que o mais perto que vou chegar de Machado de Assis será no pseudônimo que escolhi para homenageá-lo, por um tempo assinei meus textos como a senhora Maria Capitolina Santiago, vulgo Capitu. É bom não se cobrar tanto.

Como sou eu quem reviso os meus textos, a cada releitura altero um tiquinho ali, outro acolá e se dependesse de mim ainda estaria revisando a primeira crônica publicada. Mas, não depende. Por isso, escolhi um critério objetivo pra saber se o meu texto está bom, ele estará (mesmo que não esteja) toda quarta-feira às 14horas e 30 minutos, esse é o prazo fatal para eu entregar o material para o jornal publicar.

Alegrei-me porque no meu processo criativo de escrita reconectei comigo, com as pessoas e com o mundo. Tornei-me mais observadora e ouvinte. De repente, comecei a enxergar a vida de uma maneira diferente da habitual.

Decidi soltar a imaginação, em regra as situações descritas nos textos não aconteceram de forma literal e muitas vezes(para não dizer todas) quem as narra é o meu alter ego.

As histórias contadas são apenas ferramentas que uso para acessar os meus sentimentos, valores e crenças de uma forma verdadeira( aqui garanto total honestidade).

Concluindo, não existe nada de charmoso ou sagrado no ofício de escrever. É um trabalho como outro qualquer, exige dedicação e compromisso. De resto, é uma corrida contra o tempo, tendo diante da gente uma folha em branco que aguardam palavras que sejam capazes de alguma forma tocar o leitor.

 

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com