Dia a Dia

Mestre Bimba Parte 2 – (Final)

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

13 de dezembro de 2021

A capoeira era ilegal e considerada coisa de malandro ou de escravo fujão. Em 1930, Getúlio Vargas, desejando apoio do povo, permitiu que se praticasse em ambientes fechados e ainda com alvará policial. Em 1932, Mestre Bimba criou a primeira academia de sua propriedade no Bairro Engenho Velho das Brotas, em Salvador, Bahia. Foi considerada a primeira academia a ter licença para funcionar oficialmente, em 1937. Foi registrada com o nome de Centro de Cultura Física Regional. Contam que o mestre chegou a desafiar vários lutadores e que não sofreu uma única derrota.

A copeira, malvista, não reconhecida pela sociedade da época, era, portanto, renegada. Mestre Bimba levou seu grupo de capoeira para diversas cidades do Brasil, apresentando a capoeira da Bahia, também conhecida coma a capoeira baiana. Em São Paulo, em 1949, apresentou uma série de lutas e com atletas de outras modalidades também. Já em 1953, Getúlio Vargas, de passagem por Salvador, Estado da Bahia, recebe uma apresentação de capoeira oferecida pelo mestre. Foi quando Getúlio Vargas fez uma afirmação dizendo que “a capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional”. Realmente, era preciso vencer as forças que discriminavam tal esporte e o político tinha visão do valor da capoeira para os praticantes e da importância da raça descendente de africanos e com muitos adeptos do esporte. Na apresentação para o político, o grupo do mestre era de duas alas. Uma era a ala da percussão, que tinha dois pandeiros e um berimbau. O berimbau é o instrumento chave, símbolo da capoeira e do Estado da Bahia. A outra ala era a dos capoeiristas. Eles faziam revezamentos de dois em dois. Os movimentos e as coreografias encenavam os golpes.

Em 1972, o esporte da capoeira foi oficializado como verdadeira prática esportiva pelo Conselho Nacional de Desportos. Logo no ano seguinte, em 1973, Mestre Bimba saiu da Bahia rumando para a cidade de Goiânia, no Estado de Goiás. Ele estava com problemas de finanças e também considerava que os vários poderes públicos negligenciaram, não deram o devido valor ao seu trabalho em favor da cultura esportiva. Um ano após, em 1974, sofreu um derrame cerebral e veio a falecer na capital goiana. Mestre Bimba tinha 73 anos de idade quando a morte o surpreendeu. As pessoas da família diziam que o mestre morreu de “banzo”, de tristeza. Banzo era considerada pelos negros escravos como a doença da nostalgia e da saudade, que se apoderava deles. O mestre ainda ajudou a difundir manifestações culturais da Bahia, entre elas o samba de roda e o maculelê: um tipo de dança que mistura a cultura afro-brasileira e silvícola. Como herança, ainda deixou a profissionalização, a metodologia e contribuiu para que a sociedade respeitasse a capoeira. Por sua influência e de seus alunos, a capoeira adquiriu respeito, conquistou o Brasil e foi difundida por inúmeros países.

Como homenagem póstuma, em 1996, Mestre Bimba recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia. Ainda em 1996, ganha a Medalha Thomé de Souza, a honraria maior da Câmara Municipal de Salvador. Mestre Bimba, hoje tem o devido reconhecimento como um expoente da cultura afro-brasileira. Ainda bem! Há vários tratados sobre o mestre, é só pesquisar.

Na história de nossa cultura, a escravidão, uma mancha encardida na sociedade da época, teve reflexos por muitos e muitos anos, mesmo após 1988. Até hoje ainda o racismo permeia na cabeça e comportamento de alguns. Todavia, se brancos obtiveram sucesso e reconhecimento na vida, tivemos e temos também descendentes de africanos que souberam conquistar seu espaço nas artes, nos esportes, nas profissões e nos negócios. Talvez em menor número, mas, batalharam e conquistaram. Mais uma vez eu volto a afirmar que o talento não escolhe cor da pele, raça, crenças ou religiões. A cultura africana que herdamos é muito rica em todos os sentidos. Suas crenças, estilo de vida e costumes precisam ser respeitados e aproveitados no que eles têm de bom e sincero. Temos de entender que hoje somos apenas uma raça brasileira, com suas diferenças culturais e outras mais na origem, mas vivemos todos juntos na sociedade, em paz e harmonia. O que importa é o bem do povo.

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO, professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/ MG; ex-professor do ensino comercial com reg. no MEC formado no curso normal superior pela Unipac. E-mail: [email protected]