Dia a Dia

Medo é medo

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

5 de agosto de 2021

Venho de uma família de “cachorrentos”. Este é o apelido carinhoso com que a minha família denomina aqueles que são apaixonados por esses bichinhos. Todos da família Pereira são cachorrentos, exceto eu.
Antes que eu seja cancelada pelos defensores dos pets, preciso explicar os meus motivos justos.

Quando criança tive uma babá sem vocação para o ofício, em vez de brincar de boneca Susie comigo, ela preferia ler fotonovela. A fotonovela era como se fosse os celulares daqueles tempos e desvirtuava boa parte das colaboradoras de mães de suas obrigações. Para que eu ficasse quieta e não atrapalhasse seus delírios românticos, ora ela me passava medo (de cachorro), ora ela me sugigava para eu parar de chorar.

Depois que os vizinhos contaram para os meus pais, a babá foi imediatamente dispensada, claro que, antes disso, ela levou uns bons sugigões da minha mãe. Mas, o estrago já estava feito, a ponta do iceberg da minha mente dizia que era só um cachorrinho pequeno, mas a sua parte submersa transformava um Poodle Toy num Tiranossauro Rex e meu corpo logo se preparava para o matar ou morrer, a mente escolhia uma terceira via que era correr e gritar. Por isso, nunca convivi bem com esses bichinhos.

Ninguém imagina o cotidiano de uma cinofóbica. Agradeço aos meus familiares e amigos que não me julgaram por esse medo. Fora eles, tratavam-me como se fosse uma bruxa verruguenta e logo ouvia uma enxurrada de argumentos inócuos: “ele é pequeno”, “ele não morde”, “cuidado, ele vai te engolir, hein”, “você precisa se tratar”, “eles são seres iluminados”. De nada adiantava, porque medo é medo.

Dizem que eu fazia loucuras(pra mim era tudo normal) por conta dessa fobia, escalei pessoas desconhecidas como se fossem um pé de manga e amassei o teto de um Opala Comodoro zero bala com toda uma família dentro para fugir de Pequinês. Não apanhei do dono do carro porque meu pai apareceu para assumir o prejuízo e nem da dona do cão porque não a deixaram bater na filha dos outros.

Mas, chega um momento na vida em que precisamos decidir. É que comecei a namorar um cachorrento exigente, foi quase como se tivesse ouvido de sua boca: Com cães-comigo x sem cães-semigo. Após refletir, decidi dar uma chance para a cachorrinha da minha sogra (sem trocadilho algum, porque minha sogra foi uma alegria na minha vida). Deu certo e comecei a viver bem com a Maltês Duda, já não tinha arrepios na sua presença, o que era um grande lucro.
Quando parecia que eu engataria uma boa relação com os cães, um fato não a deixou avançar.

É que realizei meu casamento aos quarenta e sete minutos do segundo tempo. Era o meu sonho de menina e por isso demasiadamente esperado, eu estava radiante.

Escolhi um encontro em família para distribuir os convites lindos. Nem bem cheguei na casa de minha tia, já senti um clima tenso no ar. Pensei que assim como eu, todos estariam eufóricos com a iminência do evento.

Logo fiquei sabendo que um primo havia falecido na véspera (ainda não existia Whats App), minha tia estava triste e contando para a família sobre o ocorrido. Dizia solenemente: “Ele estava bem doentinho, era diabético, portador de uma cardiopatia grave, estou conformada”, e mexia com a cabeça, negativamente, em contradição com o que acabara de dizer.

O seu nome era Buby, um Poodle com aparência de raça indeterminada, comportamento de Pinscher, alma de filho caçula mimado e um orifício traseiro digno de filme de terror.

Eu balançava os convites de casamento no ar para chamar a atenção dos presentes, mas ela estava toda concentrada na narrativa de minha tia sobre os derradeiros momentos de Buby.

Eu insistia: “Pessoal, vocês sabiam que a festa do meu casamento será no Passos Clube?” E minha tia chorosa contava: “O Buby esperou o pai (meu tio) chegar de Brasília-DF para partir”. Eu de novo:” Família, vocês nem imaginam quem está fazendo meu vestido de noiva.” E minha prima consternada elogiava o fino linho branco que enrolaram o Buby para enterrá-lo. Tentei mais uma vez:“Gente, vocês sabiam que o meu buquê será de orquídeas?” Mas, nem precisei ouvir o próximo comentário, com certeza elas nem chegariam aos pés das rosas brancas da sepultura do Buby.

Pensei em dançar um tchá-tchá-tchá e continuar com o monólogo, tarde demais, todos estavam chorando pela morte do Buby; então, fiz a única coisa que me restava, enfiei os convites de volta na bolsa e a unha com muita força nos olhos, e chorei junto aos cachorrentos.

 

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com