Dia a Dia

Ladrão de Brasília

POR ADELMO S. LEONEL

27 de março de 2021

Todos os colunistas dão seu pitaco. Meto-lhe também o bedelho. “Ladrões roubam Brasília.” Este foi o título de matéria estampada no Alto São Francisco na sua página policial, tempos atrás. Já ia passando por cima, desinteressado, por estar em todas as manchetes de todos os jornais brasileiros (e internacionais) quando me atentei para o inusitado do boletim: a tal Brasília roubada era a velha Brasília, automóvel há muito saído de linha, estacionada no exterior do parque onde decolava a exposição agropecuária anual.

O proprietário, ao regressar da festa, não mais a encontrou no seu devido lugar e botou a bôca no mundo, clamando por ação da polícia. Ora, ora. Ladrão e Brasília fazem uma combinação perfeita, até vem rimando, intimamente, visceralmente, interdependentes, siameses. Passeiam de mãos dadas se bem que, de último, têm andado meio de briga, de mal (no melhor estilo vizinhança e funerária!) se acusando – “É a cidade distante do resto do Brasil fiscalizatório, é o sistema. O meio fazendo o oportunista.” “Hã-hã. É roubação mesmo. Bandalheira descarada com culpados carimbados na testa, nas mãos, bolsos e cuecas. Pessoal ruim que faz Brasília.

E tudo começou com um tenor embirrado com ministro soltando a ária frangosa que mexeu fundo no lodo sedimentado, superficializando a nojeira. Aliás, este tal Roberto Jeferson nem precisa do Vêsgo e Sírio Santos para estampar o maior Pânico na moçada e faz a gente matutar se quando, defendendo o Collor, argumentava sobre interesses poderosíssimos afrontados e utilizando artífícios inimagináveis ao seu impedimento. Infrator assumido, o tenor ganharia qualquer eleição hoje, municipal, estadual, federal, Academia Brasileira de Letras e, não duvidem, até à presidência!

Realizou mais pelo Brasil do que o conjunto de ditadores pós sessenta e quatro, do que o trabalho de combate ao crime da Polícia Federal (em volume financeiro, pode enquadrar a civil estadual, militar, escoteiros e ongs também), do que os presidentes “democráticos” responsáveis por acobertar as falcatruas, institucionalizando- as: “Pô! Só eu? Só o meu partido? Todo mundo arranja dinheiro eleitoral assim, compromissando a voltálo aos cofres de quem o deu, pelos escoadouros do executivo”.

Já o coitadinho vitimado pelo puxador de carros, dando adeus à sua Brasílinha velha de guerra, nem calcula se ficar sem a dita cuja lhe traz custo ou benefício. Afinal, era a alegria das mecânicas, da ferrugem aos pinos do motor insistindo em apanhar, da debreagem ao consumo desenfreado da absurda e misturada gasolina. Mas também, os caburezinhos em casa irão sentir a falta dos passeios festivos em gritos e alegrias no desbundado banco de trás e maleiro. Se não há caburezinhos, como dar as biscateadas baratas, transformada em motel ambulante?

Agora ladrão roubando Brasília (veículo) é fim de carreira. Só pode ser influência da imprensa alardeando ladrão roubando em Brasília (capital), mero seguidor de exemplo sugestionado à mania de grandeza, dos quinze minutos de holofote. Prejuizo na certa e dois problemas: primeiro, o risco de roubá-la e todas as consequências legais, que no caso dele, ladrão de Brasília- veículo, funcionam; segundo problema, o que fazer com ela depois de roubada?