Dia a Dia

Juntas somos melhores

POR PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

1 de julho de 2021

Juntas somos melhores. Era um palpite aqui, outro ali e uma discórdia acolá. Mas, no final nossa brincadeira estava criada. Eu e minhas irmãs nos tornávamos verdadeiras arquitetas e nossa casinha era construída. Com os lençóis do cesto de roupa suja edificávamos as paredes. Prendíamos as roupas de cama com pregadores de madeira nos varais estrategicamente chumbados por meu pai e ganhávamos uma digna casa de dez metros quadrados com quatro paredes e um teto.Nossa mansão estava finalizada, ainda que com um dos lados capengas pelo peso do tecido.

A decoração era minimalista, tudo que a minha mãe nos deixava levar era um tamborete de madeira e um galo pequeno de metal, ambos inquebráveis. O tamborete precisava de três meninas para transportá-lo, era mais fácil quebrar o nosso pé que o banco; e o galo… Ah, o galo … Tinha bico, crista, pé com unha, papada de metal que furava nossa mão fina de criança. Era um empurra-emurra para buscar o bendito enfeite com crista, decidido no “ímpar, par, chico”.

Depois da casinha montada, sentávamos de frente para o galo e entabulávamos uma conversinha de comadres. Mas casa gostosa tem comida, e na nossa não podia faltar. Servíamos salsichas de latas e suspiros coloridos de sobremesa em pires cor de rosa. Tudo muito fino e elegante.

A alegria de minhas irmãs era encontrar uma lata de salsicha aberta na geladeira. Nosso almoço estava garantido. Eu tinha nojo. Tudo por culpa da lavadeira de casa que falou que aquilo era igual pinto de cachorro doente. Como eu nunca tinha visto um, acreditei. Acreditei tanto que bastava ver aquela nata branca boiando dentro da lata de salsicha que tinha ânsia de vômito. Tenho até hoje.

Certo dia chegou mais uma amiga para brincar conosco, daquelas que fazem diferença na vida da gente . Era a Nunum. Com ela, uma ideia ousada: que tal se a gente fizesse uma piscina para nossa mansão? Sentíamos o formigamento nas mãos para começar o projeto grandioso quando eu argumentei: “A piscina deve ser igual à do Clube Passense de Natação”.

Começamos imediatamente a construção da piscina. Duas seguraram o assento do sofá duro de couro e as outras duas empurraram o encosto para baixo. O pesado sofá fez um rangido até que cedeu à força de nossos finos braços e se abriu numa linda piscina de águas amarronzadas.

Dentro daquela piscina gigante demos braçadas fortes, catamos pedrinhas no fundo, brincamos de passar por debaixo das pernas uma das outras, demos caldo , apostamos corridas a nado e mergulhamos fundo. Mergulho fundo até hoje. Tenho mania de criar mundos paralelos. É a forma que encontrei para fazer brincar a criança que mora em mim.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com