Dia a Dia

Ignorante!

DÉCIO MARTINS CANÇADO

29 de junho de 2021

“Vocês são uns ignorantes”! Esta afirmação, dita certa vez por um professor em sala de aula, quando eu era estudante, deixou-nos chocados. Ele se referia-se, em tom de brincadeira, ao fato de que os alunos não sabiam, por exemplo, tocar piano, falar ou escrever em Alemão ou preparar um almoço, mesmo que seguindo uma receita. A palavra ‘ignorante’ é utilizada, comumente, no sentido pejorativo, e é por isso que vou comentar a seu respeito.

Como todas as pessoas, também ignoro muita coisa, desconheço muitos assuntos, não domino todos os conteúdos, nem tenho todas as habilidades. Todos nós, sem exceção, somos ‘ignorantes’ em alguma coisa, pois não temos condição de deter todos os conhecimentos que nos cercam, embora tenhamos um cérebro privilegiado, com capacidade de fixação superior à da maioria dos computadores. Nosso cérebro tem um número muito maior de ‘bytes’, de memória RAM que essas maquinas, mas que não é totalmente utilizada, como poderia ser.

Ignorante é, portanto, alguém que ‘ignora’, que não tem conhecimento sobre determinada atividade ou assunto. De acordo com o Aurélio, essa palavra pode ser entendida também como ‘uma pessoa que não tem instrução, que não sabe nada’, daí a pergunta recorrente que sempre escutamos a respeito de determinados profissionais: “Como pode ocupar esse cargo se é tão ignorante?” Por último, essa palavra também é utilizada no sentido de ‘falta de educação’, referindo-se àquela pessoa estúpida, grosseira.

Sem querer ser redundante nem polemizar, acabo por emitir, mesmo que a contragosto, aquela pergunta que não quer calar: Como entender que algumas altas autoridades do nosso País possam ter a capacidade de nos governar, tendo que tomar importantes decisões, continuamente, a respeito de tantas coisas, tão diversificadas, tão complexas, que exigem um mínimo de escolaridade, de conhecimento e cultura, entre outras coisas? Sabemos muito bem, pois trata-se de um assunto exaustivamente divulgado pela mídia, que um ex-Presidente do Brasil afirmou, diversas vezes, que ‘ignorava’ a existência de muitos fatos (confessos e comprovados) que envolveram as inúmeras denúncias de corrupção que pairavam (e pairam) sobre aquele governo. Às vezes, como no caso dele e de seus asseclas, é mais cômodo e conveniente dizer-se ignorante. Mas deixemos esse tema para os cronistas da área, embora todos nós, cidadãos responsáveis, não possamos ‘ignorar’ a realidade que nos cerca, sermos omissos, porque as consequências, fatalmente, afetar-nos-ão.

Por seu turno, a palavra ‘Ignorância’, quer dizer: “condição de quem não é instruído, falta de saber, ausência de conhecimento.” Como é dinâmica nossa língua e como é bom buscar o entendimento e a origem de todas as nossas dificuldades (não apenas neste caso)! Se nós buscamos o conhecimento, se a Educação é a única forma de melhorarmos nosso País e a nossa própria condição de vida, não podemos aceitar passivamente o fato de ‘ignorarmos’ determinados assuntos, em especial, os Professores que, em sala de aula, têm, cada vez mais, de demonstrar capacidade e sabedoria, e para isso, terão que aperfeiçoar e atualizar seus conhecimentos, continuamente.

Também os pais não poderão, em hipótese alguma, alegar que não sabem o que fazer, que ignoravam determinadas coisas ou, até mesmo, suas consequências, porque as crianças e os jovens precisam de um posicionamento firme por parte deles, de um encaminhamento ético e equilibrado, que só se consegue através do conhecimento, da reflexão, do empenho e da busca.

Finalmente, a palavra ‘Ignorância’, tem também o sentido de ‘APELAR’, quando a pessoa se encontra numa situação de conflito e perde a paciência, perde a capacidade de dialogar. Diz-se, então, que alguém partiu para a ‘ignorância’, apelou.

Quantos de nós ignoramos as boas maneiras, os bons hábitos e a boa educação, tanto no lar ou em sociedade, quanto na escola ou no trabalho, agindo por instinto, por puro reflexo, ocasionando situações de conflito e de constrangimento?

Busquemos, arduamente, novos conhecimentos, através de boas leituras, da reflexão e do diálogo; deixemos de lado a ‘ignorância’ de tantas coisas e passemos a conviver harmoniosamente, procurando sempre o discernimento e o bom senso. É muito bom saber de tudo um pouco, é gratificante ter opiniões firmes e embasadas em fatos, é imprescindível conhecer a fundo o objeto de nosso trabalho.