Dia a Dia

Fenômeno psicossomático e psicanálise

HÉLIO DE LIMA JÚNIOR

26 de março de 2022

O fenômeno psicossomático é uma neurose atual, diz respeito a um curto circuito no processo de subjetivação que recai no corpo. “A atividade pulsional é acompanhada de silêncio em sua dimensão mais radical, sem possibilidade de simbolização”; como afirma o famoso psicanalista em todo mundo, o francês, Jacques Lacan.
No que se refere a hipocondria, nota-se que pode aparecer em decorrência de um evento traumático relacionado à doença, pois é o desejo de preservar a própria vida por meio de impulsos à morte. Pois na hipocondria todo o sintoma é interpretado como fonte grave de doença, que é um represamento libidinal do eu, tal investimento se concentra no órgão no corpo, expressando um fenômeno corporal psicótico.
Nota-se que na manifestação do fenômeno psicossomático, o ego do sujeito torna-se incapaz de efetivar sua defesa. Porém com o ego fragilizado o sujeito é limitado para desenvolver sua capacidade de simbolização, pois acaba havendo uma somatização da ansiedade. O Corpo-psique é atravessado pelos sentimentos de amor e ódio, percebe-se que este último leva a destrutividade que precisa ser expulso, daquilo que se chama de “veneno”.
A boa maternagem protege o bebê humano, aflorando um sentimento de confiança, indispensável à atividade criativa, onde psique e soma se envolvem num processo de interação mútua. Contudo, os processos psíquicos de incorporação, introjeção e identificação permitirão que o bebê possa construir a imagem de uma mãe boa e nutridora, capaz de conter as tempestades afetivas.
Verifica-se que doença é uma regressão na infância, que o ficar doente exprimiria a possibilidade de lidar com o medo da morte. O sintoma somático representa uma espécie de busca à proteção materna e não se sentir isolado.
O médico e psicanalista argentino, Luis Chiozza, especialista em doenças psicossomáticas, ressalta “que o ciúme e a inveja aparecem ligados a fantasia inconsciente cuja a vinculação é com o “veneno”, concerne a uma estreita relação com os processos psicocorpóreos que se denominam de hepáticos”. Todavia, a inveja e o ciúme têm conexões com a frustração pulsional que está associada a representação no caso do “fogo”. Expressões tais: “amargo como o veneno”, observa-se que o amargo está ligado ao fel e este ao fogo, demonstram estreito vínculo entre a bílis e o veneno.
A Psicanalista da Escola Inglesa, Melanie Klein, afirma “que a inveja impede uma boa dissociação entre o bem e o mal, provocando carência e ressentimento”. Dando continuidade à manifestação das doenças psicossomáticas, Chiozza esclarece “que o medo e o ódio ingeridos e assimilados levam o sujeito a vomitar ou a manifestar a sensação de náuseas emergindo a fantasia de ingerir algo temido e odiado”.
Assim, os fenômenos psicossomáticos, estão diante de um gozo específico, impõem sofrimento, dor e aprisionamento. Nota-se que o tratamento das doenças psicossomáticas deve ser aliado também a medicina sempre que necessário. Lacan expõe “que o fenômeno psicossomático é modo de adoecer com sua especificidade podendo ser abordado pela psicanálise, onde a doença e o adoecer expressam a maneira de uma pessoa viver e de sua relação com o universo que o cerca”. Portanto, a psicanálise ou outra abordagem psicoterapêutica, são comparáveis às tarefas maternas em ajudarem a criança identificar, diferenciar e verbalizar sentimentos. Trata-se de um processo lento, mas o paciente reconhecerá seus sentimentos, à medida que se dispõe a verbalizá-los.

HÉLIO DE LIMA JÚNIOR. Psicólogo, psicanalista, mestre em psicologia social aplicada e psicanálise. Doutor em Saúde Coletiva. E-mail: [email protected]