Dia a Dia

Faz sentido

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

30 de dezembro de 2021

Estava tudo certinho. Os convidados confirmados, a mesa farta, a bebida gelada e a família muito feliz. O local dispensava qualquer decoração e os músicos afinavam os seus instrumentos contemplando o marzão de minas.
Mas havia um forno sem graça no meio do caminho, que soltou um grito ardente no rosto de uma convidada, corre dali e daqui, até que sofremos uma viagem de quarenta e cinco minutos até o hospital para acudir a pele da amiga, pois os pelos já tinham ido embora com a explosão.
Foram meses de preparativos e de muita expectativa familiar para celebrarmos uma data significativa, e apenas um segundo de combustão para roubar parte da nossa alegria, a celebração deu lugar à preocupação com o bem estar de nossa querida.
Felizmente, os danos físicos foram mínimos, foi apenas um susto; mas, ficou a certeza de que, por mais planos que façamos, a vida não tarda em frustrar com as nossas expectativas.
Pode parecer estranho eu receber o próximo ano com uma história simples e reveladora das surpresas da vida, mas penso que quanto mais as aceitarmos, a vida fica mais fácil, a dor das incongruências cotidianas diminui.
E por mais que a nossa arrogância nos leve a acreditar que temos o poder de controlar a vida, nós não o temos. E se existe alguém que ainda não compreendeu essa verdade após um ser tão minúsculo e lábil (inativado com água e sabão) provocar o caos mundial, deveria compreender.
Mas, como já disse o poeta: “quem teve a genial ideia de cortar o tempo em fatias e lhe dar o nome de ano, industrializou a esperança”, e, embora seja um sentimento bom para qualquer época do ano, em mim ele floresce muito mais nas festas de final de ano.
É claro que possuo bons desejos para 2022, nada mais legítimo do que almejar para o próximo ano votos de saúde, de serenidade, de relacionamentos verdadeiros, de segurança financeira e de esperança. Ah, essa esperança, como é bom senti-la.
Mas, não se trata de qualquer esperança, vou adjetivá-la com robustez. Desejo para todos nós uma esperança ousada, aquela que nos permite fazer planos velhos e legítimos com as mãos totalmente abertas para Ele. Com a certeza de que o novo d’Ele sempre será o melhor para as nossas vidas.
Convido ainda para que façamos uma desconstrução do nosso conceito sobre o que sejam as “promessas divinas”. Pois as promessas divinas não são um direito nosso sobre o agir de Deus e tampouco um dever Dele para satisfazer os nossos desejos narcísicos. A única promessa que Ele nos fez foi que a cada hora nova, a cada dia novo, a cada mês novo e a cada ano nos faria pessoas mais semelhantes a Cristo.
Hoje, em vez de me perguntar: “o que posso esperar do ano novo?”, questiono-me: “o que o ano novo pode esperar de mim?”. Para mim, faz muito mais sentido.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com