Dia a Dia

Explicações

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

6 de abril de 2021

Os seres humanos estão sempre questionando as causas dos acontecimentos, sempre procurando um ‘porquê’ de tal coisa ter ocorrido, ou não, quais as razões que levaram, determinado fato a acontecer, mas, nem sempre existe uma única resposta ou única razão. Isso tem início desde a infância, pois no desenvolvimento normal de uma criança, existe uma fase, entre os 3 e 4 anos, em que ela começa a perguntar com frequência sobre tudo o que acontece à sua volta. É a fase do “por quê?”- um período de curiosidade e indagação que representa um marco no desenvolvimento da inteligência.

A fase dos ‘porquês’? exige paciência e respeito das pessoas que cuidam dos pequenos, pois nunca se deve perder de vista o fato de que eles estão construindo suas próprias maneiras de pensar. Atitudes hostis podem contribuir para a inibição, causando vergonha, desinteresse e medo de querer perguntar e descobrir.

Uma boa forma de amenizar as perguntas é devolvê-las para que a própria criança tente explicar, ou utilizá-las nos momentos em que ela não queira obedecer. Quando diz que não quer comer, a mãe poderá perguntar-lhe o porquê; se não quer tomar banho, poderá também utilizar uma pergunta e, assim, mostrar que nem tudo pode acontecer da forma como ela deseja.

E, à medida que for compreendendo o mundo que a cerca e as causas das coisas, deixará de questionar sobre as coisas do cotidiano e redirecionará sua atenção para outras aprendizagens. Mas, e depois disso? Não é só a criança que precisa buscar explicação para tudo. É saudável que também nós, os adultos, sigamos questionando sempre”.

Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra’, “define com poesia e precisão Adriana Falcão, no livro ‘Mania de Explicação’, uma obra dirigida às crianças – que adoram pedir explicação para tudo! Mas que também encanta os adultos. Nesse volume, a escritora, que também é autora de peças teatrais, explora com sensibilidade e agudeza, a mania de explicação que não só as crianças, mas todo ser humano tem, seguindo vida afora tentando compreender o que significam as emoções, os sentimentos, traduzindo em palavras o que, muitas vezes, não tem tradução.

Nesta época em que vivenciamos, cada vez mais, a falta de tempo para refletir e analisar em profundidade aspectos tão fundamentais para a raça humana, como a necessidade imemorial de compreender o que nos cerca e o que nos acontece, esse livro, aparentemente tão simples, me fez pensar sobre a importância de estimularmos, em nós mesmos, o questionamento constante. É saudável buscarmos respostas, tentarmos compreender o que acontece à nossa volta e conosco mesmos, ainda que não tenhamos o sucesso esperado nesta empreitada. O exercício de perguntar, a inquietude gerada pela curiosidade e dúvida, são motores imprescindíveis para o nosso crescimento pessoal.

A moderna educação prevê que o papel do professor seja mais o de um “propositor de problemas” do que aquele que sabe tudo e tem uma resposta na ‘ponta de língua’ para o que o aluno quer saber. Ensinar a pensar, a questionar, a buscar mais de uma alternativa para a mesma questão, a diversificar o olhar, é uma das tarefas mais importantes do educador contemporâneo, incluindo aí os pais, que devem ser os primeiros a incentivar a busca de novas alternativas para problemas corriqueiros.

Até porque, na rapidez com a qual as coisas estão acontecendo, é fundamental percebermos que, tanto mudam as nossas perguntas, quanto as respostas a elas, e que é muito dinâmico o movimento do conhecimento, por isso, tão amplo, inalcançável e fascinante. Sigamos, então, perguntando sempre, exercitando nossa ‘mania de explicação’, mesmo que não encontremos todas as respostas – que é certo acontecer. O simples fato de estarmos conscientes, atentos, nos fará seres humanos mais inteiros, em busca de uma vida, se não melhor, com certeza, diferente a cada instante. (Baseado em texto de Januária Cristina Alves)