Dia a Dia

Esperando a Páscoa Chegar

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

31 de março de 2021

Com essa terrível pandemia que nem gosto de pronunciar ou ouvir falar o nome, lá se vai mais uma Semana Santa sem procissão, velas iluminando as ruas, cânticos, ladainhas, igrejas lotadas de fiéis, e o povo participando de todos os rituais. Temos que nos adaptar forçados a esse novo tempo, e ainda “preso na toca”, mas já com a primeira dose da vacina, me sobra tempo para recordar como era a Semana Santa, seus costumes e tradições de meu tempo de infância e juventude.

Era o povo da roça mudando por uma semana para a cidade, uns alugavam casa, outros ficavam em casa de parentes. Era o povo aproveitando desde o Domingo de Ramos até a Procissão da Ressurreição, e a cidade se enchia cada dia mais. Nada prendia o povo em casa, era gente que não acabava mais, com as Igrejas cheias todos os dias.

Na Terça-feira Santa, à noite, na Procissão do Encontro, a Praça Blandina de Andrade era toda tomada pela multidão. Da sacada de um sobrado, Monsenhor Matias, no sermão do encontro de Nossa Senhora com seu filho Jesus, com seu entusiasmo e eloquência, deixava todos com mais fé, tamanha era a emoção de suas palavras durante o sermão!

Na Quinta-feira Santa, após a Cerimônia do Lava-Pés, dava – se início à Guarda de Honra (adoração ao Santíssimo Sacramento) durante toda a noite até o dia amanhecer da Sexta-feira da Paixão. Jeso Abreu era o responsável em sobrescrever e entregar as cartas convites para a Guarda de Honra da Paróquia de Nossa Senhora da Penha, e todo ano eu o ajudava a fazer a entrega de centenas desses envelopes.

Chegava eu na Infantil, sua loja, e de dentro de uma caixa de papelão, separava dezenas desses envelopes com o nome de meus conhecidos e assim, cuidadosamente fazia esse trabalho. Enquanto existiu esse costume de Guarda de Honra, antes na Igreja de Santo Antonio (demolida em 1974) depois na Cripta do Santuário, e alguns anos se fez dentro do Santuário.

O meu horário sempre foi das 3h30 às 4 horas da madrugada, e todos os participantes andavam a pé tranquilos pela madrugada por nossas ruas sem perigo de assalto ou qualquer violência, ouvindo a orquestra dos galos anunciando o raiar da madrugada! Muitos chegavam bem antes do horário, se apresentavam aos coordenadores (por muitos anos essa função foi dos Congregados Marianos e depois passou a ser do Sr. Olinto Barbeiro).

Confirmado o nome na lista, vestia-se a capa vermelha, e enquanto aguardávamos a matraca dar o sinal de troca da vigília, ficávamos ali rezando, conversando, revendo os companheiros que às vezes se encontravam somente nessa madrugada do ano, e ouvindo dona Elza de Barros e suas colegas Zeladoras da Igreja rezando o terço, puxando cânticos, e despertando o sono de todos.

E a Sexta-feira Santa era dia de respeito, e de ficar em silêncio. Rádios só tocavam músicas sacras e mensagens religiosas. No cinema, filmes com teor bíblico, carros não circulavam, comércio todo fechado, não se podia cantar e nem falar alto. Era dia de jejum total, e o povo participava de todos os rituais num clima sombrio que nos remetia à reflexão.

Por todas as ruas se ouvia: “Olha a velinha e o velão, quem não comprar não vai na procissão” . Eram velas de todos os gostos e tamanhos e o povo comprando. Na Procissão do Enterro ninguém ficava em casa, andor era carregado por senhores importantes com bata vermelha, e a procissão seguia com matracas matracando, cheiro de incenso no balançar do turíbulo, e a dor do cantar da Verônica no desenrolar do Sudário.

Uma mulher grita, agitando seu espaço: é seu véu queimando pelo fogo de uma vela. Alguém enfia o pé no bueiro e pede socorro. A molecada rindo. Um senhor zanga: “Silêncio meninos, é pecado rir na procissão!” E as crianças cumpriam com muita fé esse ritual até a chegada do Sábado da Aleluia, quando alguém vestia um boneco com roupas, chapéu, gravata, colocavam palha seca para ser queimado em algum lugar de uma praça como forma de repúdio à traição do apóstolo Judas à Jesus Cristo. E no sábado para domingo, o povo em geral curtia a madrugada na Procissão da Ressurreição, esperando a Páscoa chegar. A todos, Feliz Páscoa! É o tempo passando e a gente “Memoriando”!