Dia a Dia

Era ruim, mas era bom

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

16 de dezembro de 2021

Comer é bom, e eu gosto. Segundo o meu esposo, gosto até demais. Para ele comer é apenas uma questão de satisfazer as necessidades fisiológicas e nutritivas do corpo, por isso o seu cardápio vespertino, invariavelmente, consiste em pão com manteiga e leite com café.
Não que essa dupla seja ruim, também adoro, mas existem outros sabores esperando por um encontro apaixonado com as minhas papilas gustativas.

Para mim, comer é muito mais do que encher o bucho, tenho um grande prazer em me sentar à mesa, à grama, no pomar, na sorveteria ou em qualquer lugar que seja para saborear o que estiver afim. Cada mordida é uma viagem.

A comida é o meu saca-rolhas de emoções. Lichia, maçã do amor, vaca preta, bolinho de chuva, leite queimado, raspa de doce de leite grudada no tacho, é só eu colocar na boca e já me transporto para a chácara do tio Paulo, para o circo, para a sorveteria do Normélio, para a casa de uma vó, para a casa da outra vó. Rememoro até o leito de enfermidade.
Deixe-me explicar….

É que fui uma criança enfastiada e com a saúde frágil, um espirro na minha cabeça era o suficiente para eu adoecer. Os meus pais rodavam quilômetros (iam para Ribeirão Preto) procurando as razões da minha vulnerabilidade física. Até que, em Passos, o Doutor Hernani com sua objetividade ímpar acalmou os corações aflitos deles explicando que “gordura e gulodice não eram sinal de saúde”, situação muito defendida à época.

Enfim, como todos pensavam que aquela magrela não iria vingar, eu recebia muitas visitas, presentes e adulações durante as minhas viroses.

Era sempre presenteada com uma bandeja recheada de biscoitos secos, guaraná e a caríssima maçã argentina, era tipo uma “marmita para doente” e, como tal, possuía a parte boa, a parte ruim e a parte não cheira e nem fede.

Para mim, a porção “tanto faz” dela era composta pelos biscoitos secos, que acredito tinham por objetivo passar o nosso tempo e movimentar o corpo em repouso.

Como ficar acamada com sete anos não era fácil, eu me distraía escolhendo-os pelos formatos, eram magrinhos, gordinhos, cabeçudos, com tetas, sem tetas, tortos, retos, bifurcados e branquelos, cada um com sua singularidade e seu destino, uns para a boca e outros para o lençol da cama.

O biscoitinho de polvilho era a comida perfeita para o meu estômago inapetente, sem gosto, sem peso e, sem cor, pouco alimentava e tampouco nutria. Em compensação, provocava um frenesi na minha cama. Os farelos intrusos e piniquentos ora eram espantados por mim, ora eram catados carinhosamente pela mamãe, que, aliás, essa era a única vantagem que eu via nessa comida espalhafatosa.

Já a parte boa do presente era poder tomar sozinha um guaraná. Naquela época, refrigerante só era consumido aos domingos acompanhando a macarronada ou quando a gente ficava doente. Era uma espécie de compensação pelos dias de obediência na cama. A bajulação era tamanha,que, após eu tomar de gole em gole a minúscula gota que saía da tampa perfurada por um prego( era para poupar a bebida), a mamãe me incentivava a soltar um daqueles odiosos (para ela) arrotos que ardem até o nariz.

Porém, fosse qual doença fosse era proibido gelar a garganta para não constipar, então após uns minutos ao sol, o refrigerante quente descia fazendo borbulhas na garganta. Eu sempre achei o verbo “constipar” bonito e pedia à mamãe para repeti-lo, e ela o conjugava:”Eu constipo, tu constipas, ele constipa…e o refrigerante morno é para você não constipar, Patrícia.”

Já a parte ruim da marmita ficava por conta da presença de uma farsante, apresentava-se linda e lustrosa, mas, na verdade, era insonsa e com consistência de isopor. Após a primeira dentada, eu escondia a maçã perto da cama até que ela oxidasse e justificasse a minha rejeição. Durante as minhas enfermidades, até o desperdício era tolerado pela mamãe, e ela comia o meu resto dizendo que a fruta era purificadora do sangue. Será? Por isso, como maçã apenas por dever.

Até hoje, o simples barulho do biscoito seco, o cheiro de maçã argentina e o ardor na boca provocado pelo gás do refrigerante trazem à tona as minhas viroses e infecções. E que delícia de sinusite! Junto à febre havia muitos mimos e bajulações. Viva a amigdalite! Acompanhados do mal-estar, eu recebia telefonemas e muitas visitas. Sem dúvida alguma, posso afirmar que tudo na vida tem o lado ruim e o lado bom, e juro pra vocês que não se trata de carencite.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com