Dia a Dia

Entre tantas lembranças

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

3 de março de 2021

Semana passada, tomando todas as precauções, vidrinho de gel no bolso, máscara dupla de pano, depois de muitos dias sem ver a cara da rua, resolvi sair da toca e dar uma caminhada. Meu destino foi a Capela de Nossa Senhora da Penha para fazer minhas orações pedindo a Ela ajuda para acabar com essa que nem gosto de pronunciar. E no vai da caminhada pelo meu itinerário, no meu inseparável bloquinho anotei várias coisas que me vieram à memória, coisas de minha infância que o tempo implacável, mas necessário no seu curso natural, fez sua transformação.

Subi pelo Morro do Açude, (hoje Boiadeiros) e pude ver como as mudanças vieram: o córrego e sua pinguela, onde todos os dias dezenas de mulheres ali lavavam trouxas de roupas, há tempos desapareceu, assim como os caminhos por entre as pedras para se chegar à grande ponte de madeira, travessia do povo sobre a linha do trem de ferro. Segui subindo o morro, hoje, todo calçado e com boas casas, até chegar à Praça do Cruzeiro. Ali parei, tomei um fôlego, e vendo todo aquele movimento das pessoas e trânsito dos carros, a mente passou a vislumbrar uns sessenta anos atrás…

O grande largo vazio, no centro o Cruzeiro e o povo em procissão rezando, molhando a cruz, pedindo chuva, e nós, meninos, correndo das investidas das vacas indo para corte. A grande Árvore de Óleo que serviu de palco para histórias de romances de muitos casais. Os antigos açougues em que se cortavam o pedaço de carne, pesavam, trespassavam o chucho de um lado a outro da carne, enfiavam um barbante pelo buraco na ponta e puxavam para trás, davam um nó, e estava tudo pronto para a pessoa enfiar o dedo e carregar a carne pela rua! As vendas em cada esquina e as pessoas de pé em volta do balcão, tomando sua cachaça ou cerveja esfriada em caixotes de areia.

Entrei pela Rua Cristovão Colombo, e de uma casa, senti um aroma de janta, e logo me veio em mente aquelas simples e gostosas comidas preparadas nas panelas de ferro e feitas no fogão de lenha! Ali, naquela rua, ao lado de novas casas, teimando em permanecer de pé, a pequena casa onde morava o Sarú, local de jogatina de baralho e de muitos casos e histórias de pessoas que ali frequentavam, de seu fole com pedal que acendia o carvão na forja para ele consertar armas de fogo.

Saindo para a Rua Joaquim Lopes, foi – se o velho casarão que por algum tempo foi a casa de fogos do Sr. Tião Fogueteiro. Do outro lado era a casa do Orlando Alcochoeiro, que além de fabricar colchões de capim em substituição aos antigos colchões de palha seca de milhos, trançava rédeas feitas de cabelos de rabo de cavalo, e quando saía vendendo pela cidade era uma grande atração!

Por essa rua, algumas casas ainda teimam em permanecer de pé; os casarões do João Tibelo, a casa do Jorda Venâncio que sempre tinha em sua frente seu bonito carro de boi… Ao chegar a Praça da Capelinha, quantas lembranças de minha infância, dos antigos jogadores do Caram, dos congadeiros e das cavalhadas para o ponto de partida para os festejos do Reisado! Entrei na Capela, sentei, fiz minhas orações e, descansando, me veio em mente a inocência de minha primeira confissão para minha Primeira Comunhão, também chamada de “Primeira Eucaristia”, no ano de 1955, terno de brim branco, calça curta, gravata borboleta e sapato feito na Sapataria do José Valadão.

Fiquei admirando sua arquitetura, a beleza de seu altar e a imaginar: Antonio Caetano de Faria Loulou, de acordo com a tradição oral, ele, passando por uma dificuldade de saúde da esposa, prometeu a Senhora da Penha construir um templo em sua homenagem. Recebeu a cura, e Antonio Loulou abraçou essa empreitada envolvendo toda a cidade através da doação do terreno, de leilões de gado, rifas, festas religiosas, e em 5 de agosto de 1864 houve a benção da Capela! Fiquei por uns instantes a pensar como Antonio Loulou teria planejado e passado para o mestre de obras, o Sr. Silvio Antonio Torres, esse projeto arquitetônico de construir essa obra prima que é Capela octogonal há mais 150, sem nenhuma tecnologia dos tempos atuais.

Num certo momento, ao olhar para o altar, num relampejo da mente, vi Monsenhor Matias com sua batina preta, no altar dando sua eloquente explicação sobre o Evangelho. Tirei, e com a camisa limpei meus óculos, e com o sol já escondendo por trás do Morro do Garrafão, vi que já estava na hora de voltar. Desci sentindo o sabor de minha infância, e entre tantas lembranças, ainda pude ver algumas casas de meu tempo de criança com seus alpendres, e nelas parecia que estava vendo seus antigos moradores sentados à frente delas, tomando a fresca da tarde, respirando um ambiente gostoso e familiar! É o tempo passando e a gente “Memoriando”!