Dia a Dia

Ensinar versus aprender

Décio Martins Cançado

15 de dezembro de 2021

Ensinar e aprender, duas palavras que indicam ações contraditórias, pois nem sempre uma é consequência natural da outra, uma ‘conclui’ o que se espera da outra ou a complementa. Se eu ‘ensino’ alguma coisa, ou acho que estou ensinando, o outro nem sempre estará ‘aprendendo’, pois a aprendizagem está condicionada a diversos fatores que independem da nossa vontade. Em determinados casos, são necessários alguns pré-requisitos que criem condições para o aprendizado, como o interesse e a boa vontade do aprendiz ou, até mesmo, determinadas aptidões genéticas e físicas que possibilitem a aquisição de conhecimentos. Muitas vezes, somos tentados, tanto pais quanto professores, a acreditar que, se algo foi ensinado, forçosamente foi aprendido, mas, é comum que isso não aconteça.

Analisando sob o ponto de vista do que ocorre na prática, poderíamos pegar carona em um texto de Rubem Alves que faz uma reflexão interessante sobre o assunto. Diz ele: “Até agora, eu o ensinei a marchar” querendo dizer que, inicialmente, aprendemos a fazer as coisas de forma automática, repetitiva. E continua: “É isto que se ensina nas escolas. Caminhar com passos firmes. Não saltar nunca sobre o vazio”, ou seja, não ousando nada diferente, não buscando nada inovador. Aprendemos a “Nada dizer que não esteja construído sobre sólidos fundamentos”, não questionar sobre o novo, o diferente, o possível sob um novo ângulo de visão. E conclui, afirmando: “Mas, com o aprendizado do ‘rigor’ (da intransigência, do previsível), você desaprendeu até mesmo a arte de falar”, pois esta precisa do pensamento, da reflexão e da experiência.

“Na Idade Média, os pensadores só se atreviam a falar se solidamente apoiados nas autoridades. Continuamos a fazer o mesmo, embora os textos considerados sagrados sejam outros. Também as escolas e universidades têm os seus ‘papas’, seus dogmas, suas ortodoxias (seus princípios tradicionais de acordo com suas doutrinas). Qual é o segredo do sucesso na carreira acadêmica? É jogar bem o ‘boca de forno’ (antiga brincadeira, quando uma criança é eleita como chefe ou ‘mestre’, sendo a única a dar as ordens, enquanto os demais deverão cumpri-las) e aprender a fazer tudo o que seu mestre mandar…”

“Agora, o que desejo é que você ‘aprenda a dançar’. Lição de Zaratustra, que dizia que para se aprender a pensar, é preciso primeiro aprender a dançar. Quem ‘dança’ com as ideias descobre que ‘pensar é alegria’. Se pensar lhe dá tristeza é porque você sabe apenas ‘marchar’ (repetir sempre as mesmas coisas), como soldados em ordem unida” (sem saber porque estão fazendo aquilo).

Como é bom saber “saltar sobre o vazio, pular de pico em pico. Não ter medo da queda. Foi assim que se construiu a ciência: não pela prudência dos que ‘marcham’, mas pela ousadia dos que sonham. Todo ‘conhecimento’ começa com um sonho, e ele nada mais é que uma aventura pelo ‘mar’ desconhecido, em busca da ‘terra sonhada’. Mas sonhar é coisa que não se ‘ensina’. Brota das profundezas da mente, como a água brota das profundezas da terra. Como Mestre, só posso lhe dizer uma coisa: Conte-me os seus sonhos, para que sonhemos juntos”!

Falamos acima de Zaratustra, mas, quem é ele? Segundo consta, ele foi um ‘profeta’, ou um filósofo persa, do século VII a.C., tornado conhecido pelo alemão Nietzsche, através do livro ‘Assim falava Zaratustra’, escrito entre 1883 e 1885, obra que influenciou significativamente o mundo moderno. Nela, o autor narra as andanças e ensinamentos do personagem, utilizando uma forma poética e fictícia que deixaram marcas profundas em seus seguidores.

Entre muita coisa boa e interessante na obra, considerada de difícil compreensão por alguns, deixamos algumas ‘pérolas’ para que nossos leitores reflitam: 1 – “O que vale mais num trabalho é a dedicação do trabalhador”. 2 – “O que lavra a terra com dedicação tem mais mérito religioso do que poderia obter com mil orações, sem nada fazer”. 3 – “Aquele que diz uma palavra injusta, pode enganar o seu semelhante, mas não enganará a Deus.” 4 – “Deus está sempre à tua porta, na pessoa dos teus irmãos de todo o mundo.” 5 – “O que semeia milho, semeia a religião. Não trabalhar é um pecado”.