Dia a Dia

Eleição de Avereador

POR ADELMO SOARES LEONEL

13 de fevereiro de 2021

Qualquer semelhança de situações ou coincidência de nomes, espero que o nomeado aproveite o gancho e ganhe a eleição pelo riso. Conte comigo! “Tião do Nêgo. Direto prá Câmara dos Vereadores de Xexéu dos Bagres.” Assim rezava o santinho do Tião, único e permitido investimento de campanha feito, tal a popularidade pretensa e a confiança na vitória.

As coisas estavam meio perrengadas prás suas bandas, curteza de grana associada à preguiça de pegar no batente, o salário de “avereador” se acendeu como um enorme cartaz piscapisca de neon, meta capaz de resolver-lhe os problemas da vida: ganhar uns baitas cobres na moleza, uma merdinha de reunião por semana, entrar mudo e sair calado, passar no caixa fim de mês e, por cima, ainda ser tratado de autoridade.

Destampou a cumprimentar as pessoas, rir prá todo mundo, arengar em tudo quanto era boteco, puxar prosa com velhos e esquecidos amigos, vigiar velório e portaria de Santa Casa e Pronto Socorro. Apertou mãos inimagináveis, sacudiu-as animado, pretextando familiaridade ostensiva. Campanha o dia inteiro, a noite toda. E ia computando os votos, contando cada prometido como eleitor certo a ponto de, pela média dos anos anteriores, já ser o mais votado, estourando a boca do balão e até dispensando:

– Pode votá no Giguilim que não careço mais de voto. Rapaz bão tamém.

Êta segurança no taco. Arrependia-se de não ter se lançado para o próprio cargo de prefeito. “Ia ser de lavada!
Subia como um possesso pelos palanques, o sorriso vitorioso pregado no rosto, deixando a rabeira aos demais candidatos. “Que brigassem de tapa pelas outras vagas”. No dia da eleição nem quis sair de casa. “Era covardia!

No dia da contagem de votos botou o terno de “ävereador” e se mandou para o salão de apurações olhando o povaréu e os concorrentes com desdém. Topou com um Giguilim tenso e assustado. “Carma, caboclo que te dei um força.” Saiu o resultado e o Tião do Nêgo não pegou nem na alça, uma quantidade mixuruca de votos, dos marraias.
Atônito, voltou prá casa sem levantar a cabeça e não ver o ar de deboche dos candidatos eleitos. “Tava no papo. Adonde foi que errei?” A depressão se aprofundou quando soube. “O quê?!!! O Giguilim ganhou?!!! O Giguilim?!!!
Quatro anos depois…

Tião do Nêgo. Desta vez vai prá Câmara dos Vereadores de Xexéu dos Bagres.” Dizia o santinho dobrado em tamanho e milheiro. Partiu pro pau novamente, agora com um indefectível caderninho de notas onde lançava o nome, endereço, secção e número da urna do prometente apoiador e votante. Falou “na rádia” , enviou abraços, prometeu nos comícios, pegou menino no colo, não deixou em branco um mísero velório ou de visitar a turma no corredor do SUS toda santa tarde. Colou no candidato a prefeito, cujos retratos no jornal o tinham como permanente papagaio de pirata, sobre os ombros atrás ou aparecendo de lado.

No final, o saldo dos sonhos: caderninho entupido até a boca de nomes certos. “Certos não. Certezíssima, que quem eu tava na dúvida de traíra, nem botei aqui.” Na apuração, o saldo real: rolou ribanceira abaixo, mesmo na urna duma parentada apareceu o fatídico “Não foi votado!” As merrequinhas duns pares de votos e… só. “Nunca mais mexo com isso!” Taxou definitivo. Ah! Quase me esqueço. O Giguilim ganhou “traveiz”. Quatro folhinhas marianas depois… O diabo de salário dos “avereadores” subiu lá nas grimpas e a tentação superou a decisão tomada.
Tião do Nêgo. Agora não tem erro. Com a ajuda do amigo eleitor na Câmara de Vereadores de Xexéu dos Bagres.” Semana que vem eu conto…