Dia a Dia

Eleição de Avereador (3)

POR ADELMO SOARES LEONEL

27 de fevereiro de 2021

Há dois sábados venho enchendo o saco de meus fiéis leitores com a história do Tião do Nêgo, eterno candidato a avereador de Xexéu dos Bagres. Na primeira tentativa, ele veio com “Tião, direto para a câmara”, uma puti decepção a quem se considerava o mais votado; na segunda, “Tião do Nêgo, desta vez vai para a Câmara”, se ferrou bonitinho; na terceira, “Tião do Nêgo, agora não tem êrro, com a ajuda do amigo eleitor, estará na Câmara de Avereadores”, o desastre: se fú nas urnas, quebrou e perdeu a mulher, caindo na cachaçada. O tal do Giguilim, eleito em todas.

Quatro anos de chacota até que… (novidade!!!) o salário de avereador dobrou. Dobrou também o número de partidos – faltou candidato prá tanta legenda. Mesmo alheio à sua vontade (nada lhe significou o papel colocado à sua frente, na mesa da venda, onde rabiscou o nome, antes de cair no sono outra vez) estava inscrito como candidato. O Giguilim foi contra:

– Sacanagem com o Tião, gente. O cara tá na sarjeta por conta de política. Judiação!

Aquela palavra foi como a faísca que acendesse o rastilho de pólvora, coincidente à opinião de quantos o viram se estrumbicar em três eleições, ou seja, a Xexéu inteira repetiu: judiação! E mineiro é extremamante solidário com as pessoas atiradas na pindaíba ainda que, com as de sucesso, ele morra de inveja e tente por todos os meios derrubá-las (é uma regrinha, chata, chata, mas geral, geral!) e vilipendiar em riba. O Tião continuava bebendo, bebendo… de sol a sol, de lua a lua, entregue à necessidade de esquecer os infortúnios de suas desventuras eleitoreiras e ao abandono da patroa. Ah, a patroa!!! A companheirada de cana tentava animá-lo:

– Apruma cabeça, avereador!
– Muié só atrapaia, côrno!
– Acorda, ô otoridade!

Com tanto estímulo, aí que o Tião metia as caras na cachaça. De repente, surgiu do nada o santinho estampando sua cara de primeira campanha, gordo, forte, sorridente: Tião do Nêgo para avereador de Xexéu dos Bagres. É o povo que pede.
Lá da outra banda da cidade apareceu um muro pintado:

Vamos votar no Tião do Nêgo, cambada. E todo mundo criava alguma gracinha, nos quatro cantos e na mídia. Mandavam publicar, soltavam musiquinhas, slogans espatafúrdios, cotizavam horas de alto-falante, repartiam a conta da tipografia, a turma de aperitivos da sexta-feira mandou rodar cartazes, os feirantes se incumbiram de panfletos, o time de peladeiros bancou um monte de out-doors. Tião prá avereador. da lama à glória. Variações mil:

Xexéu tem seu cacareco. Tião do Nêgo na cabeça. A faixa apareceu misteriosa, provávelmente da estudantada a fim de rebordosa e de achincalhar a classe: Cachorro por cachorro, vote numa anta. Tião do Nêgo de Avereador.
Deu o que falar. Uns achando um desrespeito aos políticos respeitáveis, os demais rindo da brincadeira, poucos aplaudindo por inteiro. A idéia fez pipocar faixas em cem botecos e repúblicas de Xexéu. Ponha seu avereador prá trabalhar. Esqueça dele e vote em Tião do Nêgo, um desempregado.

Faça do seu voto uma ação de caridade. Tião do Nêgo. Se o povo tem de ser roubado que seja por um necessitado. Tião do Nêgo. Foi preciso mesmo do juiz intervir, chamando às falas os humoristas de plantão para explicações no fórum mas o tiro tangeu culatra afora: multiplicaram os atos de rebeldia e toda manhãzinha surgiam muros e ruas e calçadas e postes e portões pichados. Agora um legítimo representante do povo na Câmara de Xexéu dos Bagres. Pobre e abandonado. Tião.

Ignorando o movimento, na contínua bebedeira, o Tião achava estranho (mas, bão!) ao aumento das pingas pagas por desconhecidos e xingou bravo na noite em que lhe sungaram pelos sovacos, soltando- o perante a multidão no último comício do partido em plena praça principal da cidade. Aturdido com os aplausos, desentendido, segurou no cabo do microfone (e foi segurado pelas calças) no equilíbrio imperfeito dos bebuns e gargolejou:

– Num perde tempo cum eu, não. Só perdo. Vota aqui no Giguilim, gente.

Aplausos e gritos ensurdecedores. No susto, descambou prá trás, trupicou nos fios indo espatifar a bateria da banda. A multidão foi ao delírio uníssono:

– Tião do Nêgo. Tião do Nêgo. Tião do Nêgo.

Jamais na história de Xexéu dos Bagres houve votação mais expressiva num candidato a avereador. O Tião obteve mais votos do que o candidato a prefeito que ficou em segundo lugar. Só perdeu pro prefeito eleito. Sabe quem? Sabe quem? Claro, o Giguilim. Já o mandato do Tião do Nêgo. Êste… bem, conto depois.