Dia a Dia

Eleição de Avereador (2)

POR ADELMO SOARES LEONEL

20 de fevereiro de 2021

Semana passada, contávamos a história do candidato a avereador do município de Xexéu dos Bagres, por nome de Tião do Nêgo. Tentou a primeira vez, crente da vitória fácil e de lavada (“Direto para a Câmara”), rejeitando até votos em benefício do Giguilim (por sinal, eleito) e deu mal. Na segunda tentativa (“Tião do Nêgo desta vez vai para a Câmara”), nova frustração (o Giguilim foi). Puisentão.

O diabo do salário foi subido lá nas grimpas e a tentação superou a decisão do Tião de abandonar as lides eletivas. E lançou-se:
Tião do Nêgo. Agora não tem êrro. Com a ajuda do amigo eleitor, na Câmara de Avereadores de Xexéu dos Bagres!
Recuperou parte da auto-estima e arregaçou as mangas. Botou a casinha de herança hipotecada no banco, mandou rodar o dôbro do dôbro de santinhos, fazer “prásticos” de pregar nos vidros dos carros e das “parteleiras” dos botecos, pôs alto-falante na rua zoando dia inteirinho e pedaço da noite, pregou cartaz nos postes, pintou muro.

Se é nos cobres que os outros ganham, vão ter comigo agora. Nos cobres também! O salário de avereador compensa. É investimento.” Só que os cobres nem eram tanto assim como supunha e a campanha comeu tudinho bem antes mesmo da fervura final. Quando apreçou as camisetas de enfeitar as meninas (Tiãozetes) foi obrigado a dispôr do aparelho de TV, do jôgo de sofá da sala e do tanquinho da patrôa. Chorou um desconto nas camisetas, diminuiu o tanto delas e chegou com o pacote. A muié bateu os pés, braba com a desfeitura dos trens de casa, e não quis saber de vestir a camiseta com a foto do marido, seu número e o indefectível “Agora não tem êrro”.

– Tião, home sem juízo. É bão mémo ocê tratá de ganhá porque senão, além de ficá na merda, perdê a casa, nem muié vai sobrá mode contá o causo. Sumo tamém. Atiçado nos brios e nos riscos (apesar de tudo, era apaixonado na patrôa), o Tião partiu pro corpo-acorpo, visitando a maioria das residências de Xexéu, se mostrando, prometendo repartir o próprio salário de avereador. Subia no palanques de comício, dizendo-se enviado de São Jorge a combater a mentira e a ladroagem, afirmou ter visto Nossa Senhora a lhe abençoar a candidatura, se converteu em duas assembléias de crentes, bateu tambor na umbanda, acendeu velas no cemitério, enfim, apelou forte e feio!

Quase morre de susto assim que soube o quanto as meninas bonitas da cidade cobravam só prá desfilar com a sua camiseta de propaganda. Mercado inflacionado (ou pouca mulher bonita, não sei!) as bonitonas mesmo valiam seu pêso em ouro e já estavam comprometidas com a turma de caixa forte. Fazer o quê?!!!

– Não tem potranca, vai de mula manca.

Arregimentou a coroas de perto-de-casa, outras de mais além que viviam de cobrar por serviços de cama. Ainda sobrava camiseta. Foi pro botecos ajudar bebuns a se vestir. Sobrava. Chamou a molecada da escola e distribuiu o resto.

– Êta molecada safada, sô! Acabam comigo. Ocê acredita que deram um jeito de apagar um “não” e escrever “” pro riba? Quem vai votá na gente depois de lê “Agora só tem êrro”? Ainda breganharam meu número pelo do fiedazunha do número do Giguilim.

Com tantos e “fiéis” cabos eleitorais não deu outra: se estrumbicou, dos menos votados. Perdeu a eleição, a casa e a muié, que cumpriu o prometido e arribou a poleiros menos destrambelhados que o do Tião. Nem carece lembrar que o Giguilim tava eleito! Esbagaçado, humilhado, jurou jamais sequer pronunciar alguma palavra que tivesse algo a ver com política, com eleição e voto. Se afundou na cachaça a ver se esquecia o infortúnio completo. Difícil propósito: a cidade inteirinha comentava seus (mal) feitos, folclórica ilustração de como não se proceder em campanha eleitoral e todo bêbado arruaceiro recolhido pela polícia trazia a fatídica camiseta publicada na página policial do jornal: Tião do Nêgo. Agora não tem êrro… e a foto sorridente.

Quatro anos de chacota até que… o salário de avereador dobrou! Dobrou também o número dos partidos – faltou candidato prá tanta legenda. Mesmo alheio à sua vontade, prá ele pouco significava o papel que lhe deram a assinar na mesa da venda antes de cair no sono outra vez. Estava inscrito como candidato. Essa, eu arremato semana que vem.