Dia a Dia

É coisa nossa, uai!

SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

9 de junho de 2021

Tantas escritas já fizeram, e tantos continuam escrevendo sobre o que é ser Mineiro. Nessa, também quero fazer a minha, diferente do que já li, sobre como é bom ter nascido nessas Minas Gerais e conviver com a simplicidade de quem diz: “Que trem bão, sô!” Mas ser Mineiro não é só dizer “Uai trem bão”, é saber valorizar nossas tradições, nossos costumes, nossa família e apreciar as coisas simples do nosso dia a dia.

A vida do Mineiro é sem pressa, principalmente os mais antigos que vivem em pequenas cidades desse nosso imenso Estado. É desse povo acolhedor, simpático, de sua simplicidade e comportamento que esse nosso mundão tem muito a aprender e que vou escrever hoje.

Mineiro desses nossos grotões, quase isolados, pouco conhecidos, com barulho somente da natureza, onde nas manhãs o sol demora mais a nascer esbarrando nas belas montanhas, e à tarde se esconde mais cedo. Assim, com seu modo de vida isolado dos grandes centros, após o dia de serviço, depois de um banho de água fria de uma bica, o Mineiro janta, toma um café moído na hora e sai para dar um dedinho de prosa, jogar sua conversa fiada em algum boteco, ponto de encontro dos bate papos com os amigos.

Ao chegar, os cumprimentos são: “Como é que ocê tá?” “Graças a Deus, a gente vai bem!” “Vamos vivendo como Deus quer!” “Graças a Nossa Senhora Aparecida e a Virgem Maria a gente vai vivendo!” E ao se despedir: “Vai com Deus e que Nossa Senhora te acompanhe, Amém, Jesus!” E ao saber da morte de um conhecido ou parente: “Que Deus o tenha na Santa Glória!” Notícia ruim:” Cruz credo, Ave Maria!” Em suas conversas, fatos verdadeiros se transformam em “causos” contados com toda paciência, e para visualizar um tempo ou uma data, nada de números, diz: “Aconteceu naquela época, antes ou depois daquele fato!”

Caladão, fala menos e escuta mais, desconfiado, cauteloso, finge que não sabe aquilo que sabe, sempre tem uma história pra contar, e num sossego danado, faz seu cigarro de palha. Quando o assunto é política, toma cuidado para não ofender quem está no poder e quem caiu fora dele. Quanto à vitória: “uns falam que apoia um, outros falam que é o outro.” Esses Mineiros que ainda são tantos, não se fazem de rogado, segundo a tradição Católica, recorrem a sua religiosidade e em seus apuros e momentos de aflição conclamam sempre seu santo de proteção, e fazem seus pedidos para o santo certo para cada ocasião: Chuvas fortes, raios e trovões, gritam à Santa Bárbara dar fim na tempestade. Em viagem, pedem a proteção de São Cristovão. Doenças no olho recorrem à Santa Luzia. Na hora do parto, o socorro à Nossa Senhora do Bom Parto, para as causas justas e urgentes recorrem a Santo Expedito, e para arranjar casamento as preces são para o santo casamenteiro Santo Antonio!

Essa sua vida cotidiana faz com que seja um sábio sem saber, um grande conhecedor das coisas que o cercam, e dos mistérios que envolvem o tempo.

Encantado pela Mãe Natureza e seus segredos, o Mineiro sabe se a chuva vai chegar pelo movimento dos animais, galos cantando fora de hora, sapos, rãs e pererecas saindo durante o dia da toca, andorinhas voando rasteiro, pelo cantar do grilo, da cigarra e da saracura, baratas alvoroçadas e pela correição das formigas. Pelo formato das nuvens sabe se vai chover forte ou se vem só uma manga de chuva, nunca erram se a hora é boa para o plantio, e se aquele ano a safra vai ser boa. Se a estiagem for longa vem o ritual de aguar o pé do cruzeiro. As mulheres e crianças na hora mais quente do sol, em procissão, levam várias imagens de santos, latas e garrafas cheias de água, e de joelhos rezam o terço, molham o pé da cruz, e rogam a Deus chuva. Quanto à cordialidade e sua mineiridade, seja de qualquer parte das Minas Gerais, o nosso comportamento não muda. E quando saímos para visitar um amigo, parente ou um filho que está distante, em nossa bagagem não deixamos de levar um queijo meia cura e um fresquinho, acompanhado de uma goiabada cascão e um doce de leite, alguns ovos caipiras muito bem embalados, um litro da boa pinga, ou quem sabe algumas pamonhas. E o pão de queijo?

Tudo isso é coisa de nós Mineiros, uai!

É o tempo passando e a gente “Memoriando”!