Dia a Dia

Dona Luzia do Chico Tacheiro

POR PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

20 de Maio de 2021

De quem você é filha, querida? ”Quando ouvia essa pergunta, orgulhosamente, respondia :“ Sou filha do Marcos da Dona Luzia do Chico Tacheiro.” Somos sempre de alguém, que também é ou foi de alguém. É assim que perpetuamos a alegria e a necessidade de pertencer, no meu caso à afetuosa família Pereira.

Falar de vó é sempre arriscado, a literatura está cheia de casos de vovós muito interessantes, Narizinho e Pedrinho que o digam. Por isso é muito fácil cair no lugar comum ao escrever sobre a figura da vovó. Mas não dá pra começar esse texto sem a principal de todas as frases clichês: Minha Vó era a melhor do mundo inteiro….

Ela era fofa por dentro e por fora, era a vovó do mundo das ideias. Por fora os cabelos pintados de branco iluminavam um rosto que não escondia os outubros, o corpo rechonchudo era um convite carinhoso ao abraço, o sorriso largo e os lindos olhos azuis escondidos pelas rugas eram sua carta na manga, derretiam o coração mais endurecido.

Ela era a vovó que lemos nos livros de conto , usava vestido de vó, penteado de vó, chinelo de vó, guardava dinheirinho no sutiã, contava histórias e estórias e para completar fazia quitanda como ninguém. A casa também era de vó, muito simples, sempre com as portas abertas desejando boas – vindas aos visitantes. A casinha da horta era o principal cômodo da casa, o ponto de encontro da família. Na beira do fogão a lenha ou ao redor da mesa de refeição comíamos o pão e nos tornávamos companheiros.

Dela herdamos o prazer em agradar oferecendo comida, assim como no filme “A festa de Babette” ficamos felizes em poder servir o outro e provocar satisfação pelo paladar. Havia sempre um cheirinho bom vindo da cozinha, as rosquinhas milimetricamente enroladas desmanchavam na boca e eram o sonho(sempre concretizado) dos vizinhos assanhados pelo delicioso aroma.

Alguém me disse que casa para ser animada tem que ter cheiro de comida, cebola e alho “afogando” na panela, torresmo frito na gordura de porco, bolo e café fresquinhos. Assim era casa da vovó, muito entusiasmada. E o que dizer das pamonhas? Cresci no meio delas, vivenciava a sua produção .Era uma iguaria com prazo certo, naquela época o milho só granava no mês de dezembro, por isso a temporada de pamonhas coincidia com as chuvosas férias escolares.

A chuva era alegria dela e a tristeza nossa, não havia como a criançada bater perna na rua debaixo de água. Em compensação ela teria o tão desejado auxílio dos netos no preparo do milho. No início, ajudávamos a contragosto, mas a sua sabedoria ímpar sabia prender a atenção de menino. Envolvia- nos com seus famosos causos , desde a assombração que tomava café até a mulher pernuda que seguia os rapazes desavisados pelas noites da cidade.

Então, a catança do milho passava a ser a mais gostosa das brincadeiras, muito melhor do que jogar queimada na rua. No dia seguinte, o pagamento pela execução do trabalho era uma minipamonha quentinha com amarrilho de palha em formato de laço. Para os vaidosos, pagamento bom era a sucessão de adjetivos dignificantes tais como: “Faculdade de Filosofia”, “Santa Casa de Misericórdia”, “Clube Passense de Natação”.

Escolhia as maiores edificações de Passos para nos elogiar, queria que nos sentíssemos grandiosos, mal sabia ela que já nós sentíamos assim por sermos seus netos. Hoje sua casa simples foi substituída por construções enormes assim como era o coração de sua antiga proprietária. Mas tudo o que vivemos dentro da casa da melhor vó do mundo, será insubstituível, eternizou nos nossos corações.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.