Dia a Dia

Do meu jeito

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

30 de março de 2021

Estamos próximos do tempo da Páscoa que, acredito, muitos saibam, significa ‘passagem’, originalmente referindo-se à saída do povo judeu da escravidão no Egito para uma vida livre e que, atualizada, quer dizer ‘passagem’ de uma vida de pecado, angústia e sofrimento a uma nova vida, plena de paz e de harmonia, conosco mesmos e com o próximo. A Páscoa sugere a reflexão sobre dois temas candentes: a Morte e a Ressureição de Cristo. Para nós, a esperança da ressureição não exime a preocupação de encarar a inevitabilidade da morte. Mas, em algum lugar, entre o nascimento e o momento final, ficam guardados os arrependimentos, que, por sinal, ocupam um lugar significativo na liturgia de todas as religiões.

Pensando nisso, o que você faria se descobrisse que tem pouco tempo de vida para gastar? O que gostaria de fazer e que ainda não realizou? Será que carrega, guardados lá no fundo da alma, arrependimentos que até hoje provocam pesadas lembranças? A reflexão sobre esse tema motivou a enfermeira australiana Bronie Ware a lançar o livro “Os cinco maiores arrependimentos à beira da morte”, de sucesso mundial, muito comentado nas redes sociais, em palestras e em artigos de autoajuda.

Ao contrário do que se poderia imaginar, nas listas dos entrevistados da enfermeira, a maioria pacientes terminais, não constam desejos mirabolantes como as tentações da luxúria ou uma visita às pirâmides do Egito. Os arrependimentos da lista são metas triviais, com destaque para uma convivência maior com os amigos e com a família. Nesses depoimentos arrependidos apareceram a covardia de expressar sentimentos e a falta de tempo e de ânimo para brigar pela própria felicidade. Cada pessoa é única e, com certeza, todas tentam acertar mais do que errar nas decisões da vida, mas muita coisa não depende de nós. Somos um conjunto complexo de herança genética, educação no lar, influências da escola e de amigos, opções acertadas ou erradas que tomamos, religião e exemplos de vida de outras pessoas.

Esse tema nos faz lembrar da famosa canção “My way”, uma versão do francês “Comme d’habitude” para o inglês, feita por Paul Anka e imortalizada por Frank Sinatra em 1968. Interessante destacar que a versão manteve somente a melodia, pois o texto é totalmente diferente da versão francesa original. A letra adaptada narra a vida de alguém que chega ao fim com poucos arrependimentos e que ainda se orgulha da vida que levou. Em uma das estrofes, esse imaginário personagem da música demonstra uma satisfação por ter vivido do jeito que sempre quis para, no final, não dar espaço aos arrependimentos.

Regrets, I’ve had a few, but then again, too few do mention” (arrependimentos, eu tive alguns, mas então, de novo, tão poucos para mencionar). A letra segue descrevendo uma vida intensa, de alguém que planejou cada passo, que riu e chorou, sem medo do risco das derrotas. Talvez a interpretação dessa música por Frank Sinatra tenha sido tão marcante, porque ele próprio era alguém que aparentava um certo destemor. Fez mais de 50 filmes, teve romances com as mais belas mulheres de Hollywood e revirou Nova Iorque do avesso. Dizem até que esteve envolvido com a máfia.

E você, já parou para pensar quais seriam os seus maiores arrependimentos? Está satisfeito com a vida que leva? O que o tornaria uma pessoa mais feliz? A profissão que exerce é a que, de fato, escolheria se tivesse outra chance? Entre idas e vindas, acabou ‘perdendo’ um grande amor em sua vida? Imagine uma canção suave ao fundo, servindo de introdução para seus mais recônditos pensamentos. Aos poucos, a música penetra na sua mente e, com a frase que inicia a música My way: “And now, the end is near” – E agora, o fim está próximo… como você iria encarar esse momento? Com certeza, não será muito fácil, mas as mudanças acontecem a partir de nossa decisão de mudar, e de ser melhor em nossos relacionamentos, em nosso trabalho, em nossa vida.

Basta que façamos as coisas da forma em que acreditamos serem a correta, a mais honesta, a mais humana, a mais amorosa. E talvez, então, você possa dizer, como uma das estrofes da citada música: “Eu já amei, ri e chorei, cometi minhas falhas, tive a minha parte nas derrotas, e agora conforme as lágrimas escorrem, eu acho tudo muito divertido, porque que eu fiz tudo isso, e devo dizer, sem muita timidez, eu fiz tudo do meu jeito”.