Dia a Dia

Dia Internacional da Água

DIOGO TARANTO

23 de março de 2022

O Brasil não a trata com o devido respeito. É consenso global que ela é o bem mais precioso que temos, mas estamos longe de valorizá-la como deveríamos. O Brasil segue ineficiente e irresponsável na gestão de seus recursos hídricos e apesar de algumas melhorias em curso, estamos bem distante de termos um quadro ideal, que contemple o atendimento a toda população, aos setores produtivos da economia e o respeito à natureza, que clama para que utilizemos esse recurso essencial à vida com seriedade e de forma sustentável.
Dados recentes do Instituto Trata Brasil, que tomou a iniciativa de criar um ‘Esgotômetro’ calculam que o país despeja na natureza 5.336 piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento todos os dias. É um número assustador. Quase 100 milhões de brasileiros (46%) não possuem acesso à coleta de esgoto e como causa desse quadro, nosso Sistema Público de Saúde se sobrecarrega por doenças que seriam facilmente mitigadas se tivéssemos o básico que é o saneamento. É um drama social.
Embora, por exemplo, o SNIS e o próprio Instituto Trata Brasil tenham um papel de bússola, fundamental para conhecermos alguns desafios do setor no país, as análises são, em sua maioria, ligadas a organismos governamentais, e há uma dificuldade imensa para retratar qual é a parcela da iniciativa privada responsável por causar imensos danos. Não temos um atlas completo sobre o quanto empresas, indústrias, condomínios e centros comerciais descartam todos os dias, de forma irregular, milhões de litros dos mais diversos tipos de líquidos que causam impacto extremamente nocivo a rios, lagos, ao solo e aos lençóis freáticos.
Intensificar a fiscalização em regiões de polos industriais, por exemplo, seria um grande passo rumo a identificação de quem atua de forma irregular. Mas ao entrarmos com estas ações teríamos que enfrentar diversos gargalos que passam pela falta de um projeto sério e de âmbito nacional para coibir e autuar essas empresas, até questões que envolvam o ataque a corrupção e a falta de estrutura dos agentes públicos, que deveriam fazer valer a lei diante de crimes ambientais e contra a sociedade.
Além do descarte irregular de efluentes e da imensa falta de estrutura de saneamento no país, temos, ironicamente, o problema do desperdício. Em média, no Brasil, quase 40% da água que é captada e tratada é perdida, escorre pelos ralos. A quantidade seria suficiente para garantir o abastecimento a mais de 63 milhões de pessoas em um ano.
Temos o desperdício em regiões onde há abundância de água e não promovemos medidas mitigadoras de consumo mesmo onde o recurso é escasso por falta de investimentos em infraestrutura, monitoramento e controle dos sistemas de distribuição.
Em ambos os casos, falta incentivos ao reúso, que é um instrumento de mitigação eficaz e essencial em todas as regiões do Brasil. Ao não adotá-lo, além dos danos ambientais graves, há perdas econômicas gigantescas, tanto para grandes industriais, como para consumidores residenciais. Ao reutilizar a água e usá-la de forma sensata, tanto o bolso como a natureza serão beneficiados.
A crise hídrica que ainda afeta diversas regiões do país e deverá ser intensificada nos próximos meses, com a chegada dos períodos de estiagem nas estações de outono e inverno, já derrubou, ou ao menos deveria ter derrubado, a falsa proteção ilusória de que o Brasil tem água doce em abundância, com 12% da disponibilidade global. Isto é fato, assim como é fato que somos um país continental e todo esse recurso está distribuído de forma desigual, sendo cerca de 80% na região Norte, e apenas 3% nas áreas próximas ao Oceano Atlântico.
Soma-se a essa distorção os efeitos cada vez mais sentidos relacionados a novos contaminantes nas águas e das mudanças climáticas, cada vez mais vorazes e constantes, na qual constatamos que não podemos perder uma gota sequer, se queremos injetar competitividade aos nossos negócios e oferecer dignidade e saúde a todas as comunidades no País.
CONTINUA…

DIOGO TARANTO, diretor de Desenvolvimento de Negócios no Grupo Opersan, especializado em soluções ambientais para o tratamento de águas e efluentes.