Dia a Dia

Dia a Dia: Na calada da Noite

1 de abril de 2020

Domingo à noite, chuvinha fina caindo, ruas desertas com o povo dentro de suas casas respeitando ordens das autoridades de saúde sobre o grave problema: ”não sair às ruas para evitar contaminação com esse invisível e traiçoeiro vírus”.
Nem parece que estamos chegando aos últimos dias da Quaresma, em que no meu tempo de criança, muitas eram as pessoas que acreditavam que coisas estranhas apareciam e quem saía nas ruas, à noite, corria o risco de se deparar com assombração!
E foi nesse tempo que conheci Seu Dino, freguês do Salão de Barbeiro de Papai, com sua boa prosa e entonação de sua voz firme, tinha facilidade em contar seus casos, e eu, menino ainda, ao ouvir, acreditava e tinha medo. Pelos vários casos que eu ouvi, e por estar na Quaresma, vou passar a vocês um que é mais ou menos assim:
Dizia ele: “Perto de meu sítio, depois da morte da viúva Ana e por seu esposo Zeca, por ter ele sido um homem mau, as terras foram partilhadas, cada filho pegou seu pedaço de chão, construíram sua casa, e ninguém quis a sede do velho casarão, hoje abandonado, e de fato eu sou uma testemunha viva que ele é assombrado… E lá, num certo dia, resolvi ver de perto se de fato lá tinha assombração. Companheiro nenhum topou ir comigo, o jeito foi enfrentar sozinho. Cheguei lá com o sol sumindo, entrada da casa sem porta com uma baita caixa de maribondos acima do portal e na ponta do telhado uma coruja vendo minha presença desandou a piar. Ali, na sala, coloquei a lamparina num caixote apodrecido, forrei o chão com uma velha coberta, encostei na parede de frente para a porta, e me observando pelos caibros enfumaçados estavam enormes ratos, com milhares de baratas se escondendo nas largas frestas do que restava de assoalho. Com a chegada da noite, o cansaço do dia e ouvindo um barulho de água de um rego nos fundos do terreiro, comecei a cochilar. Olha gente, dizia ele, juro pela alma da mamãe que graças ao bom Deus está no céu: De repente começou uma agitação dos diabos, sem ter nenhuma criação no terreiro, patos grasnavam, galo cantando fora de hora, galinhas cacarejavam, pintinhos e angolas piando, relincho de cavalos, chiado de carro de bois, bezerros berrando, vacas mugindo, e porcos a focinhar, fazendo um alvoroço danado. Dentro de casa, lençol branco voando, caveiras rindo, uma mulher vestida de preto sem mostrar o rosto segurando uma criancinha contra o peito chorando, portas e janelas batendo, pela porta da frente aberta vi a porteira iluminada, velas acesas andando pelo ar, uma carroça puxada por um grande bode com um enorme chifre com um homem em cima dela. Pra mim esse homem era o Zeca. Porque meu pai, que o bom Deus o tenha na santa glória, sempre falava: homem ruim ta ali. Certa vez ele abusou de uma mocinha, empregada de sua fazenda e quando ela apareceu esperando para parir, ele mandou seus camaradas dar tanta chibatada nela até ela vim a morrer com a cria. Mas voltando ao casarão assombrado: Eu ali sentado sem pernas pra levantar, o jeito foi fechar os olhos, e rezar pra Nossa Senhora do Socorro que me ajudou a pegar no sono. Só fui acordar já com o dia amanhecendo, com a roupa cheia de pulgas, e sentindo um mau cheiro de morcegos coalhado nos caibros do telhado. Bati a camisa para livrar das pulgas, e logo pela manhã, vim até a cidade, contei tudo que se passou para o padre… que oçeis conhece muito bem. Ele me disse que ia lá dar uma benzida na casa, mas acho que até ele ficou com medo, porque até hoje não se tem notícia dessa benção!”
Esses causos eram contados nos tempos do fogão de lenha, em noites frias, a família rodeava o fogão, na chapa quente o bule esmaltado de café aos poucos ia se esvaziando e as prosas de assombração iam surgindo.
Enfim, os anos se passaram, os fantasmas de outro mundo foram substituídos não mais por assombração, mas por sustos mais modernos, pelos perigos dos vivos, pela calada da noite, ou à luz do dia, e nem precisando ser em Quaresma!
É o tempo passando e a gente “Memoriando”!

 

Sebastião Wenceslau Borges