Dia a Dia

Dia a Dia: Mudanças

24 de março de 2020

Todos nós, desde tenra idade, precisamos aprender a nos organizar. Dentro de casa é necessário aprendermos, sempre, a administrar as nossas coisas, os nossos objetos, de forma que, quando deles precisarmos, possamos encontrá-los com facilidade e em bom estado. Começando pelas crianças.
Parece simples, mas como disse Içami Tiba em seu livro: “educar dá trabalho”, e isso vale para o lar e para a escola, lugares de formação por excelência, onde há sempre a necessidade de estar ensinando como administrar o tempo, os materiais, o planejamento de estudo em consonância com o lazer e o esporte e, de modo especial, aos jovens, também no que tange aos relacionamentos e às redes sociais.
Sabemos que é natural nas pessoas, e permanece até hoje, com muita evidência, a velha expressão: “por que simplificar se podemos complicar?” Esse comportamento é reforçado ainda mais pelo nosso processo de aculturação, através de um ensino elitizado, que se preocupa muito mais com os ‘meios’ educacionais do que com os ‘fins’ para os quais foi constituído, e que deveria se preocupar, prioritariamente, com a verdadeira formação dos alunos, a ‘formação para a vida’.
Os professores, em sua maioria, foram formados em escolas que têm no bojo de suas disciplinas a inadequação à realidade brasileira, ao meio em que vivem, através de estudos de modelos importados, sem o cuidado de adaptá-los à nossa cultura, principalmente, a regional.
Para melhor adequação e melhoria da qualidade educacional como um todo, é necessário o incentivo aos professores, à pesquisa e à leitura de autores nacionais, não obstante utilizem bibliografia estrangeira. É muito importante que se apresentem, nos cursos de formação dos profissionais da educação, proposições baseadas em experiências vivenciadas no Brasil, que possuam significativas implicações à prática do ensino-aprendizagem no nosso país.
Muitos professores, apesar de anos de faculdade, de experiência e, até mesmo, após concluírem algumas ‘pós’ graduações, ainda repetem em suas atitudes o modelo com que foram educados que, por sua vez, repetem o modelo anterior, numa corrente contínua de manutenção das práticas educacionais de décadas atrás. Percebe-se que não há a preocupação urgente de interromper essa continuidade burocrática e pedagógica no dia a dia da sala de aula.
As dificuldades são grandes, mas já é hora de repensarmos nossas atitudes. Historicamente, na cultura brasileira, o ‘óbvio’, o natural, sempre foi fora de moda. As evidências são tantas que ‘ser honesto’ é motivo para ‘regozijo’ em público. Pela falta do óbvio, criamos estruturas para corrigir exceções. Não seria mais racional, como no caso da formação de professores, melhorar o ensino normal do que proliferar cursos de preparação, atualização e pós-graduação?
As atitudes mais simples são totalmente esquecidas e relegadas a um segundo plano, em prol de novas técnicas ou novos “fazeres pedagógicos” embasados em ‘novas’ filosofias, que sequer foram testadas na prática e que trazem ‘novidades’ totalmente desvinculadas da realidade.
Será difícil dizer “obrigado” a um subalterno que bem desempenhou sua tarefa? “Parabéns” a um aluno que tenha feito os exercícios propostos, ou que tenha conseguido sucesso nas avaliações, ou se comportado adequadamente durante as aulas? No entanto, esta é uma das formas de compensação bastante negligenciada pela maioria dos administradores, na qual se colocam também os Professores (que administram a sala de aula) além de Especialistas e Direção.
Será difícil dizer, você acertou e eu errei? Se as crianças aprendem com os erros, por que nós, “administradores”, biologicamente adultos, não o fazemos também?
Nesse momento em que as mudanças são a esperança de um povo, é oportuno lembrar a todos que elas não acontecem por acaso, ou por ato isolado de uma pessoa ou grupo ou, até mesmo, pela hierarquia pura e simples, mas sim, pela consciência coletiva da sociedade ou do meio em que se vive, trabalha ou estuda. Nada muda, se os envolvidos no processo não tiverem a vontade de mudar, de alterar o seu comportamento.
“Deve-se ter em mente que não há nada mais difícil de executar, nem de processo mais duvidoso, nem mais perigoso de conduzir, do que iniciar uma nova ordem das coisas.” (Maquiavel).