Dia a Dia

Dia a Dia: É Semana Santa?

Por Sebastião Wenceslau Borges

8 de abril de 2020

Estamos em plena e diferente Semana Santa. Sem acompanhar a procissão de Domingo de Ramos, sem participar de cerimônia “Lava Pés”, via – sacra, missa e confissão, Procissão do Enterro, “olha a velinha, olha o velão, quem não comprar não vai na procissão”, cânticos, ladainhas, retiros espirituais, e outras celebrações.

Creio que hoje em dia não são muitas as famílias que ainda mantém tradições e costumes, repassados por gerações anteriores às suas, que eu vivi e presenciei em minha infância no dia da Sexta-Feira Santa como: Não se varria casa, não se ligava o rádio, conversas em tom baixo, jejum o dia todo, cobrir os espelhos e santos, não vestir roupas vermelhas…

E como esses costumes da Quaresma e da Semana Santa estão mudando! Mas é sempre assim, os costumes velhos se vão para dar lugar aos novos.

Nos dias atuais, para muitas pessoas, essa data é vista como um feriadão, dias de descanso, de lazer e passeio. Esse ano não é o tempo que fez essas mudanças, é por conta dessa pandemia tão agressiva e devastadora causada por esse inimigo invisível que está atormentando a vida não só de nós, brasileiros, mas o mundo inteiro. Mas o progresso nos permite participar de celebrações pela internet!

Em minha adolescência e juventude, participei de vários retiros espirituais realizados no antigo Asilo da SSVP nesse tempo de Quaresma. E nesses retiros, mais precisamente lá pelo início dos anos de 1960, após o almoço, “fazendo um kilo” nós, os mais jovens, juntamente com os Confrades mais idosos, ficávamos sentados na escadaria do Asilo, desfrutando da sombra refrescante que naquela hora dava em sua escadaria, vendo a cidade ainda sem nenhum prédio, (nem mesmo como o povo falava “o prédio do Neif“).

Nesses inesquecíveis retiros, tinha a participação do Monsenhor José Maria Matias da Silva que, em suas palestras (para ele o tema era livre) com seu vozeirão, sempre se referia sobre o perdão pregando a passagem do Evangelho sobre o “filho pródigo” e dava exemplos da vida de São Francisco, e de seu desapego dos bens materiais. Outras pessoas de cidades vizinhas de Passos eram convidadas e revezavam nas palestras: De Guaxupé: o Bispo de nossa diocese Dom José Alberto Castro Pinto, Vicente Casagrande e Odilon Costa, Carmo Paschoini de São Sebastião do Paraíso, Omar Krauss de Alpinópolis, e de Passos: Cônego Jose Timóteo, Padre José Lemos, José Paulo de Souza, Antonio Caetano Lemos (Cuecão), Arnulfo Nogueira de Figueiredo, Gaspar Leite Duarte entre outros. Após as palestras aconteciam os debates em grupo e, à tarde, na pequena, mas bonita capela, juntamente com Padre Salim, Monsenhor Matias celebrava a missa com a benção do Santíssimo.

E assim, caminhando pelo tempo, recordo uma época onde a Semana Santa mudava mesmo a rotina do povo. Era um tempo de profunda reverência religiosa, na Sexta-Feira Santa, nas emissoras de rádio suas programações eram substituídas por músicas clássicas, tristes e de cunho religioso, e a TV era influenciada também a substituir seus programas alegres por outros mais condizentes alusivos à vida, paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os católicos tinham a Sexta-Feira Santa como uma coisa muita sagrada, carros não circulavam, silêncio pelas ruas e praças, comércio todo fechado, não se bebia bebida alcoólica, namorados sem namoro, famílias da zona rural vinham para a cidade participar de toda programação da Semana Santa, e a maioria do povo passava o dia na igreja meditando, rezando, participando de todos os rituais, e nada prendia o povo em casa.

 

Mulheres, ao entrar na Igreja colocavam seu véu, as mangas compridas no braço e seu xale que cobria o ombro, e os homens de paletó. Montagem da procissão, todos perfilados. Havia as filas dos Coroinhas, dos Congregados Marianos com fita no pescoço, Filhas de Maria com seus vestidos brancos e faixa azul na cintura, Zeladoras do Sagrado Coração de Jesus com seus vestidos pretos e fita vermelha, crianças vestidas de anjos e muitos penitentes descalços.

E assim foi-se esse tempo em que nossas casas não tinham muros altos, cercas elétricas, câmeras de segurança, alarme, e no raiar da madrugada ouvia-se a orquestra dos cantos dos galos anunciando a alvorada.
É o tempo passando e a gente “Memoriando” !