Colunas Dia a Dia

Detalhes tão pequenos de uma vida – Parte 2

24 de abril de 2020

Minha avó Geralda era adepta dos chás. Sabia fazer chá para curar de um a tudo. Havia uma horta de couve que era cortada por um rego d’água, para facilitar na hora de aguar as hortaliças, que cresciam viçosas. Eu e os irmãos ajudávamos no plantio do alho, plantado religiosamente na Sexta-Feira da Paixão, da alface e do quiabo. Quiabo só podia ser semeado por crianças, para o pé não ficar muito e produzir rápido.

Aprendi a rezar o terço ainda menina e acompanhava vovô Joãozinho nas rezas em torno do oratório de madeira, decorado com os santos de devoção da família. Nas novenas ,unidos, os vizinhos rezavam apertando as contas do rosário com fé, pedindo e agradecendo as bênçãos do céu.

Era costume guardar as folhagens benzidas no Domingo de Ramos e . quando se via o clarão seguido daquele ronco de trovão, ecoando no cinza escuro do céu, recorríamos aos ramos bentos, enquanto com as mãos postas pedíamos socorro aos santos das tempestades:

– Santa Bárbara, São Jerônimo, valei-nos!

À noite, nos reuníamos na cozinha para contar muitos causos, acompanhados de café com quitandas e muitas risadas. Naquele tempo não se usava a palavra serão ou hora extra, apenas se combinava para descascar mandioca à noite, depois da lida diária. A vizinhança se ajuntava para ajudar e todo o trabalho era para se produzir a farinha ou polvilho no outro dia cedinho.

Sei que hoje em dia é preciso de muito mais que brasas para aquecer o caldeirão onde moram os sonhos, é necessário mais que rapaduras para adoçar uma vida. Mas quem viveu algo parecido sabe que essas lembranças são preciosas. Nem o tempo vai conseguir esfriar o calor da chama do fogão à lenha da nossa memória.

Maria Mineira é escritora. Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro: “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra”. E-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br