Dia a Dia

Debater sem agredir

POR LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

5 de abril de 2021

Um fato acontecido há muitos e muitos anos, aparece na folhinha do calendário Coração de Jesus, no dia 09 de março de 2021, com o título citado. Segue o assunto com nossos palpites.

O texto, sempre resumido, diz que nos dias de hoje, quem sabe gritar mais forte e mais alto, consegue vencer uma discussão, um debate. Não concorda o autor do texto, que esse caminho seja o melhor, o mais razoável, o mais racional, o mais saudável. “O argumento da força não pode ser maior que a força do argumento (ipsis litteris).” Diz ainda que é possível discordar, divergir, mas, dentro da educação, de uma atitude civilizada, sem agressividade.

Também concordo, sei que é muito difícil, quando o oponente perde as estribeiras, como se costuma dizer, mas, é possível.

Lembro-me de um fato, desviando um pouco da folhinha, acontecido com o então deputado e professor de direito, o dr. Pinto Antunes, de Lorena, SP, radicado em São Paulo, capital. Foi também, pelo que eu saiba, diretor na Faculdade de Direito São Francisco e professor na Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, ambas em São Paulo, capital. Quando deputado, foi provocado por um colega na Assembleia. O colega, no ato do debate, disse ao dr. Pinto Antunes que ele usava calcinha de rendas. Com uma bela presença de espírito, o dr. Pinto Antunes confirmou que realmente estava usando uma calcinha de rendas, que por engano, havia pegado da mãe do colega, ao… não preciso explicar o resto!

Também, entre a deputada Ivete Vargas e o colega deputado Carlos Lacerda, aconteceu algo. Foi o amigo Job Milton Figueiredo Pereira, já falecido, quem me contou. Quando, na sessão da Assembleia, no Rio de Janeiro, foi anunciado que o deputado Carlos Lacerda estava com a palavra, a deputada Ivete Vargas, com o microfone aberto, resmungou:

“ – Lá vem o purgante! ” O deputado Carlos Lacerda, ótimo orador e “ferino” nas palavras, reagiu na hora: “ – E já se fez o efeito!”

Mas, voltando à folhinha do dia 09/03/2021, temos a apresentação de um fato ocorrido entre o teatrólogo irlandês George Bernard Shaw e o Primeiro-Ministro Winston Leonard Spencer-Churchill, da Inglaterra. O teatrólogo enviou ao senhor Churchill um convite para a estreia de sua peça Pigmaleão: “Tenho a honra de convidar digno Primeiro-Ministro para a apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver.” Winston Churchill passou mensagem respondendo, com educação, sem ofender e no mesmo “diapasão”: “Infelizmente, não poderei comparecer, mas, irei à segunda apresentação, se houver.” Tal acontecimento nos é narrado por Chico Alencar, autor de BR 500, um guia para a redescoberta do Brasil, da Editora Vozes. Muitas e muitas histórias como essas já existiram e algumas ficam mais famosas, talvez, pela popularidade das pessoas envolvidas.

O que podemos tirar de proveito de tudo isso é que, num debate, numa discussão, seja para qual finalidade for, é preciso ter a cabeça fria, o raciocínio afinado com a boa educação. Nem sempre o outro é um inimigo, um adversário não tolerável, portanto, não há necessidade de ferir sensibilidades com grosserias. Podemos debater ou mesmo discutir com um irmão, um parente, um amigo, por termos pontos de vista diferentes, mas, a nossa educação tem de ser igual, ou seja, as duas ou até mais pessoas que possam fazer parte da conversa ou contenda, precisam ter bons modos, ser civilizadas, educadas. Há um conselho dizendo que a palavra lançada não tem volta. A pedra lançada também, principalmente se ela acertar o alvo.

Não se ganha uma discussão partindo para as agressões verbais, para a braveza, o que faz a pessoa ficar irracional num determinado momento. A irracionalidade, provocada pela ira, pela raiva, faz a pessoa perder os freios e partir para atitudes, que, geralmente, não condizem com a boa educação que recebeu. O risco, é perder a razão e ganhar, não adversários, mas, inimigos. Quantas pessoas já se arrependeram e pediram desculpas depois dessas atitudes indevidas!

Os ditados populares são fontes de grande sabedoria. Vejamos: “Cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.” Dizem ser de Portugal este provérbio aí! Muito bom, por sinal!

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO, professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG, ex-professor do ensino comercial com reg. no MEC, formado no Curso Normal Superior pela Unipac.