Dia a Dia

Convivência, aceitação e perdão

28 de abril de 2020

Em época de pandemia, de isolamento social, veem-se nos relacionamentos familiares situações de desencontros, de divergências, o que não deixa de ser saudável, pois essas experiências são, normalmente, muito ricas e diversificadas e se constituem em oportunidades para que possamos aprender e crescer.

As dificuldades começam desde cedo, quando uma criança se chateia com os pais, embora os ame, pelo simples fato de receber um “não” ou um “sermão” por uma falta cometida. Qual pai ou mãe já não perdeu a paciência ante o choramingar de um pirralho? Qual marido ou esposa já não respondeu de forma ríspida, sem paciência, para o outro? São situações e momentos inevitáveis, mas de profundo sentido, se deles emergirem os benefícios da interação, educação e diálogo, fatores que auxiliam no amadurecimento da convivência.

Esse é um processo humano que, naturalmente, pressupõe aprendizagem e ensinamentos recíprocos quando, pais e filhos, ou cônjuges, vivenciam a experiência do perdão e da aceitação mútua, nas diferenças de relacionamento do dia a dia. Daí é que surge a indagação: de que maneira aprendemos e ensinamos atitudes de perdão?

A esse respeito é válida a reflexão dos pais acerca do seu comportamento frente às atitudes dos filhos. O que somos para eles? Como interpretamos suas ansiedades, suas ‘falhas’, seu modo de nos ver, de ver as nossas incoerências, de ver o mundo e as outras pessoas?

Em dias normais, sabemos que nem sempre a paciência é uma virtude das mães, entregues aos afazeres da casa, ou chegando do trabalho e encontrando ‘pestinhas’ a bagunçar por perto. Quem já não passou por isso?! A criançada inquieta, ávida por liberdade e descanso após o dia da escola, reclamando de uma coisa ou outra: um pouco d’água, algo para comer, o brinquedo ou a roupa que não foi encontrada… e a mãe, sem tempo, sem paciência, às vezes sem estrutura! – “fique quieto, agora não dá, não me amole, depois, tá?!”

Quando a mãe encontra um pouco de sossego, dá conta daquele que a olha com mágoa. E vem o momento de reconciliação, porque é hora de dizer: “estou aqui, agora posso ouvi-lo”, e para que se restabeleça o clima de harmonia, torna-se indispensável certa disposição interior da qual resulte um gesto de acolhimento e uma palavra, cada vez mais mágica: “desculpe-me”.

Às vezes, a situação é outra, que leva a outra reação e se faz necessário o diálogo. Ao invés de justificativas, vale mais ouvir o que um tem a dizer ao outro e, nesse gesto, a criança se julga compreendida e tira da cabeça qualquer ideia de abandono ou de rejeição. Com humildade e franqueza, a conversa se torna positiva: “Meu filho, eu não lhe dei ouvidos àquela hora. Perdi a calma e fiquei nervosa. Não pude atendê-lo…”. A partir daí, é possível que ele lhe diga: “Está bem. Desculpe-me também, porque até cheguei a pensar mal da senhora…”.

As divergências têm seu lado positivo quando, de lado a lado, há, a seguir, a sedimentação da amizade. Nas relações humanas se faz a experiência da ‘falha’ e do perdão. Falha que resulta na distância entre uma pessoa e aquele a quem ela ama. O perdão apaga a distância. A alegria da presença sucede a angústia da solidão.

Essas atitudes expostas para um lar, para a mãe e a criança, se colocadas em devidas proporções também para o pai, para a família com adolescentes, para o casal e para a escola, no relacionamento entre alunos e professores, podem servir de subsídio para a prática educacional, na qual preponderem a sabedoria e o sentimento, hoje tão distantes nas relações humanas, de uma forma geral.

O fundamental para a saúde emocional de cada ser humano é o bom relacionamento com os outros. Atualmente tem-se dado mais importância às ‘coisas’ do que às pessoas, ao desempenho mais do que à aceitação, à realização individual mais do que à coletiva. Diariamente somos bombardeados por mensagens da mídia, proclamando que a felicidade advém de uma série de produtos, porém, o que a maioria de nós necessita é de incentivo e ajuda para construir uma convivência positiva em qualquer ambiente, sem a qual as melhores técnicas aplicadas serão ineficientes.