Colunas Dia a Dia

Ciência e tecnologia em tempos de pandemia

30 de abril de 2020

Aqueles que não têm memória muito curta, provavelmente se lembrarão das notícias veiculadas pela mídia e que permeavam a redes sociais no final de 2015 e início de 2016, as quais davam conta de um novo vírus que passava a preocupar as autoridades sanitárias do Brasil: o Zika. À época, chegou-se inclusive a cogitar o adiamento ou mudança de sede das Olimpíadas que aconteceriam no Rio de Janeiro em agosto de 2016. Acontece que o Zika foi controlado (não facilmente, é claro), as Olimpíadas não foram adiadas e o Brasil conquistou 19 medalhas, deixando um legado controverso para a Cidade ‘Maravilhosa’.

Controvérsias à parte, os mais desavisados poderiam imputar o controle do vírus ao puro acaso. O que certamente não foi o caso. Acontece que laboratórios de pesquisa do Brasil, entre eles o Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB/USP) e a Fiocruz, já vinham desenvolvendo estudos sobre o vírus, mesmo sem que ele de fato tivesse sido identificado no país ou causasse, até então, preocupação para os órgãos públicos de saúde brasileiros. O ICB/USP, por exemplo, já havia demonstrado cientificamente a capacidade do vírus de atravessar a placenta e causar microcefalia em fetos. A pronta resposta do país à recente epidemia naquele momento somente foi possível porque o Brasil, através de seus institutos de pesquisa, possuía um conhecimento prévio sobre a dinâmica de evolução da doença. O caso do Zika é apenas um exemplo, entre tantos outros, da importância da Ciência e Tecnologia no fornecimento de respostas para problemas que continuamente se colocam para a sociedade.

Em tempos de pandemia, como a que vivemos atualmente, vemos pessoas torcendo, rezando e colocando suas esperanças na capacidade dos cientistas de encontrarem a cura, vacina ou respostas para a doença que tanto vem afetando a vida humana em esfera mundial. Acontece que, muitos dos que hoje oram pela cura, há meses davam voz a um desqualificado Ministro da Educação em suas críticas à universidade pública brasileira. Ora, quem faz pesquisa no Brasil, seguindo uma tendência mundial, são as universidades. Universidades públicas. De fato, entre as 50 instituições que mais publicaram trabalhos científicos no Brasil entre 2014 e 2018, 44 são universidades, das quais 43 são públicas: federais ou estaduais, segundo levantamento da Clarivate Analytics.

Fazer pesquisa demanda recursos humanos, pessoas. Esse é justamente um dos maiores entraves para o desenvolvimento científico brasileiro. Não porque não tenhamos pessoal qualificado. Muito pelo contrário. Nosso pessoal faz um trabalho primoroso em um ambiente precário. Foi no Brasil, por exemplo, no Hospital das clínicas da Faculdade de Medicina da USP, onde nasceu a primeira criança do mundo gerada a partir de um útero transplantado de uma doadora morta. Também no Brasil, o Instituto Adolfo Lutz (IAL), e o Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT-USP) mapearam em 48 horas o genoma do SARS-Cov-2 do primeiro paciente brasileiro diagnosticado com a doença, quando a média mundial para a realização de tal procedimento é de 15 dias. Não nos faltam recursos humanos capacitados, faltam-nos, no entanto, as condições para que cientistas possam se dedicar exclusivamente ao “fazer ciência”.

Essa dificuldade em manter recursos humanos dedicados à ciência advém justamente da irregularidade no aporte de recursos. Desde 2013 a pesquisa brasileira vem sofrendo duros e contínuos golpes. Historicamente, nossa C&T é financiada com recursos do Ministério da Ciência e Tecnologia – que em 2016, se tornou o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – e do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Acontece que uma lei de 2013 retirou quase 40% da arrecadação do FNDCT. Em Março/2019, em um novo golpe contra o setor, o Ministério da Economia do governo Bolsonaro retirou 42% (o equivalente a R$ 2,1 bilhões) do orçamento do MCTIC. Mais recentemente, a Portaria 34 da Capes – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – mudou as regras de concessão de bolsas de pesquisa, aumentando ainda mais o fosso entre as diferentes regiões do país e o aporte entre as diversas áreas do conhecimento. Na prática, esse desmantelamento, que se dá desde 2013, significa menos bolsas de pesquisa, baixo investimento em laboratórios e menor retorno a uma sociedade carente de respostas urgentes.

A recente pandemia deixa explícito o quanto não é possível depender de orações em assuntos estratégicos como C&T, a qual carece de investimentos robustos. Sem uma política séria de apoio às universidades públicas e à ciência por elas desenvolvida, não venceremos os desafios postos pelo cenário atual. Não dá para almejar a cura ou a vacina para a Covid-19 e reverberar contra a universidade pública, num total desprendimento da realidade.

Paula Maria Rattis Teixeira é Mestra em Ciência, Tecnologia e Sociedade pela UFSCar, doutoranda em Engenharia de Produção pela EESC/USP e bolsista Capes.