Dia a Dia

Ler é bom e eu gosto

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

9 de setembro de 2021

Todo final de semestre e início de férias era o mesmo ritual, saíamos do Grupo Escolar Doutor Wenceslau Braz direto para o Bazar Americano a fim de escolher as minhas distrações.

Enquanto o papai ficava de papo com o Danilo Pimenta, eu flanava entre as estantes escolhendo as minhas próximas viagens. Para esse quesito, não havia economia, desde que o livro comprado fosse lido.

Desde a minha primeira ida para a “Ilha Perdida”, tornei-me uma viajante junto à vaga-lume, escalei a “Montanha Encantada” e voei com o “Menino de Asas”. Mesmo sem compreender o significado da palavra perda sofri com as do “Tonico”. Existe perda maior para uma criança do que trocar as brincadeiras infantis pela labuta do trabalho adulto? E foi com o “Mistério do Cinco Estrelas” que adquiri a minha queda por suspense, aliás gosto do gênero até hoje.

Percebia que os livros eram o meu bilhete para uma deliciosa viagem e cada vez que eu retornava para casa, os meus pensamentos e sentimentos estavam diferentes do momento em que embarquei.

Com a leitura eu nunca me sentia sozinha, e com ela já curei algumas aflições incompreendidas, bastava-me “um dia frio e um bom lugar para ler um livro” e a transformação acontecia.

Na infância, me envolvi com um tal Sítio do Picapau Amarelo, envolvimento que durou muito tempo devido a uma adaptação televisiva da obra de Monteiro Lobato. O meu pó de pirlimpimpim era um pacote de bolachas Mabel, assentava-me com ele na frente da TV e num minuto já estava fazendo as traquinagens com a boneca Emília no “Reino da Águas Claras”.

Tudo o que se passava no Sítio do Picapau Amarelo da televisão, eu corria para conferir nos livros e, quando percebia um descompasso entre eles, enchia a boca pra dizer:” Ih, mas no livro é muito melhor”. Foi a primeira vez que eu senti o gostinho de ter poder, e fazia questão de liberar bem devagar as informações para as minhas irmãs.

No dia em que fui autorizada (com 11 anos) a ler Jorge Amado, foi um rito de passagem para a vida adulta, é que rolava uma discussão entre os meus pais sobre a conveniência dos livros do autor para uma criança. Mamãe achava o linguajar dele inapropriado para minha idade, mas para minha sorte, ela foi vencida pelo argumento forte de meu pai, que alegou ser o baiano essencial para me apresentar as desigualdades sociais do Brasil. A descrição da noite de amor entre Pedro Bala e Dora no livro “Capitães de areia” me impactou.

Até hoje me angustia pensar naquelas crianças maltrapilhas esquecidas pela sociedade fazendo bebês (era a única função do sexo) nas areias das praias baianas. Seriam os seus futuros filhos também moradores daquele lugar (trapiche)sem esperança?

Também tive a minha fase piegas, lia uns romances de bancas de revista chamados “Júlia”, “Sabrina” ou “Bianca”. O roteiro era clichê, dois enamorados que brigavam durante cento e quinze páginas, nas cinco finais o conflito se resolvia e na de número cento e vinte o livro acabava. Devia existir um combinado entre a editora e os autores, porque esses seguiam à risca a quantidade de páginas dos romances e o final era sempre feliz. Só se esqueceram de me contar que na vida real não era assim.

Essa fase persistiu por quatro anos, mas passou.

Foi quando conheci os livros de Machado de Assis, como a maioria das pessoas, comecei a lê-los por pura obrigação, porque a escola mandava. Mas a história de Bentinho, Capitu e Escobar me capturaram de tal forma que me tornei Machadéfila.

Quantas vezes tive a sensação de ser eu a mulher descrita em suas histórias. Como ele conseguia me conhecer tão bem? Saber das minhas expectativas, dos meus medos e das fraquezas incompreensíveis até para mim mesma? A cada encontro com ele a minha admiração e o meu amor por sua literatura cresciam. Ainda vou falar muito dele por aqui, podem esperar.

De todos os livros lidos e relidos, existe um que me acompanha durante uma vida inteira, nele encontro direção na escuridão e prumo no caos, apuro o ouvido para ouvir Aquele que me provoca transformações diárias e que farão diferença no mundo.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com