Dia a Dia

Bebéee dodóiiiii

Marli Gonçalves

2 de setembro de 2021

Será que paladar também amadurece? Na infância, eu adorava jatobá e comia suspiro colorido “de venda” que nem arroz com feijão. Mais tarde, na juventude, o meu prato preferido era qualquer sanduíche, quanto mais molho e batata frita melhor. Café nem pensar. Apenas na maturidade aprendi a me alimentar com comida de verdade e a apreciar um bom café.

Só que tomo café por pura teimosia, pois algumas vezes (que não posso prevê-las) essa deliciosa bebida toca um sino na minha cabeça e desencadeia uma crise aguda de tontura misturada com uma forte dor nas têmporas e mesmo eu chamando várias vezes o tal “Juuuucaaa”, ele não me socorre.

Só sou socorrida no hospital. Em uma das inúmeras vezes em que estive lá, após eu ser examinada, colocaram-me no quarto de recuperação com outras três mulheres (foi antes da pandemia). Uma das moças dormia profundamente, enquanto um rapaz, que depois vim a saber ser o seu namorado, velava com muita preocupação pelo sono e pelo soro dela.

Quando cheguei ao quarto, por um momento, as outras mulheres pausaram a conversa, pois o meu semblante demonstrava o tamanho do meu mal-estar.

Mas, foi o prazo da enfermeira me medicar e me acomodar na cama, as duas moças acordadas pareciam estar num balcão de barzinho badalado, contavam histórias e gargalhavam sem parar.

Eu não achava posição boa na cama e meu dessossego deve tê-las incomodado; logo, uma delas, a que estava aguardando receber alta hospitalar (portanto sem dor nem mal-estar), me fez a pergunta óbvia: “você está passando mal?” Acenei que sim, indicando a minha indisposição para continuar a conversa.

A partir daí, continuaram o papo como se fossem amigas de uma vida inteira e não deram a mínima para ninguém, falaram de viagens, de dieta, de filhos, de Botox, de receitas culinárias e de tudo o que eu conversaria se estivesse bem, mas, naquele momento, eram os assuntos mais antipáticos do mundo para mim.

Por fim, o médico deu alta para uma das pacientes, e a outra ficou sem a sua parceira de prosa. Quando desanimou de puxar assunto com o namorado da dorminhoca, fez uma ligação pelo FaceTime. E, para minha tristeza, a escolhida foi uma moça, que, pelo que entendi (muito bem entendido), se sentia injustiçada, muito mais em razão de seu egocentrismo do que pela realidade dos fatos.

Espero que vocês com mal-estar nunca precisem ouvir as lamúrias de uma pessoa que incorpora o seu papel de vítima. Quanto lamento, quanto mimimi, quanta chatice da moça de lá. E a moça de cá, alimentando a autocomiseração da amiga, fazia caras e bocas exprimindo interjeições que diziam nas entrelinhas “que horror isso tudo que você passou, morra de pena de si mesma”.

Dentro da minha bolsa havia várias chitas e, por um breve momento, pensei em atirá-las no aparelho celular para acabar com aquele ramerrão e quem sabe adoçar um pouco a conversa.

Depois de um tempo considerável da minha sessão tortura, o meu remédio começou a fazer efeito em mim e na moça apagada, a minha dor diminuiu bastante e a bela adormecida deu sinal da sua graça justamente na hora que o seu bom namorado não estava presente.

Já era noite e o hospital estava silencioso, a mulher do FaceTime já havia ido embora com a pressão baixa e com autoestima altíssima pela sensação de ter ajudado a amiga vítima e ao universo.

E eu aguardando a alta hospitalar pensei em assuntar com a dorminhoca, então, antes que eu falasse qualquer coisa e sem razão alguma, a mulher começou a gritar: “beeeebéeee doooodóooi…” “beeeebéeee doooodóooi…””beeeebéeee doooodóooi….”. Se eu não estivesse amarrada no soro teria saído correndo pelo hospital, os gritos da mulher ecoavam no silêncio hospitalar e ela gritava sem parar.”beeeebéeee doooodóoooi…””beeeebéeee doooodóoooi….”
Logo, apareceram os enfermeiros, o médico, a vizinha de quarto, o técnico de raio X e, por fim, muito preocupado, o namorado bonzinho da moça. E ela, fazendo dengo olhou para o moço, fez beicinho e falou baixinho: “beeeebéeee dooodóooi…””beeeebéeee dooodóooi…””beeeebéeee dooodóooi…”Vou apertar a tecla SAP e lhes traduzir: .beeeebéeee: o seu bebê (no caso ela), dooodóooi: está doente.

Cheguei em casa completamente recuperada, afinal usufrui de um dos melhores remédios naturais que podem existir no mundo, umas boas gargalhadas.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com