Colunas Dia a Dia

Barú

Por Adelmo Soares Leonel

21 de novembro de 2020

Algumas pessoas recebem de Deus o dom carismático de penetrar no coração do povo e o exercem em sua plenitude, conquistando o carinho e a simpatia de uma cidade inteira.

Um desses felizardos passou, aqui em Passos, a sua curta mas muito proveitosa existência: o radialista e vereador Messias Augusto Pádua, folcloricamente conhecido por Barú, apelido que êle próprio cultivava e se apresentava em qualquer ocasião por mais cerimoniosa que fosse.

Iniciou sua carreira no rádio como operador de mesa de som ainda garoto e passou por todas as fases possíveis dentro da Rádio Passos até atingir o sonho de ser o narrador de futebol número um da emissora. Conquistou o seu espaço na garra e no grito (e como gritava, a ponto de ser escutado em todo estádio quando vibrava com uma jogada), voz potente e corpanzil chacoalhando de alegria e vivacidade. Infelizmente, a prova maior do sucesso foi a presença popular maciça por ocasião do seu enterro, lotando o cemitério e arredores, numa demonstração sentida de quão grande se constituiu a sua passagem lá prá cima.

Mas o Barú deixou, além do nome na Praça de Esportes, um repertório de histórias deliciosas, ocorridas no exercício profissional da radiofonia interiorana, guardadas com amor e reverência pelos colegas.

Certa feita, aportou por estas plagas um recém nomeado gerente regional da Minas Caixa, Roberto Rossi, acontecimento que mereceria, certamente, a cobertura da emissora local. Agência lotada pelo movimento normal e instalação do novo mandatário, burburinho surdo e calor, confusão de gente se acotovelando, surge o Barú e aproveitando-se do potencial físico, consegue, aos trancos, chegar até às proximidades da mesa do gerente, onde recebia cumprimentos de autoridades o regional empossado (moço ainda, de rápida ascensão por competência e apadrinhamento político- prática costumeira do finado banco).

Nesta época, a transmissão de eventos como este se fazia por telefone e o Barú, na ânsia de executar prestamente o seu trabalho, já foi logo tomando conta do aparelho e discando para a central:

– Alô. É da rádio? É? Então me bota rápido no ar!

Enquanto fazia a ligação, apertou a mão do gerente; no meio daquela confusão toda:

-Muito prazer, eu sou o Barú da Rádio Passos e vou entrevistá-lo ao vivo e agora. Pronto? Estamos no ar.

Sua voz se fez ouvir acima das outras que, dominadas, se calaram instantaneamente. Microfone encostado na boca do entrevistado.

-Prezados ouvintes desta conceituada emissora, meu caro repórter Barulho, tenho a honra…

O ofendido Barú retirou, bruscamente, o microfone e arranjou, num repente, uma desculpa super esfarrapada para interromper a transmissão:

– Alô Central. Está dando muita estática, muito ruido. O retorno tá ruim. Entra com música. Ordem dada e cumprida, ele se volta ao Rossi:

– Vamos deixar claro uma coisa aqui, doutor. Meu nome é Barú. Barú, ouviu? Com muito orgulho. Não admito que ninguém me chame de Barulho, muito menos um forasteiro, novato em minha terra.

E, ante o olhar atônito do interlocutor, continuou a desfiar uma ladainha mal-humorada.

Foi a entrevista mais curta de sua carreira.