Dia a Dia

Aprender a Desaprender

DÉCIO MARTINS CANÇADO

27 de julho de 2021

Sabemos que a pessoa humana, desde o nascimento, precisa aprender tudo o que faz; por isso, necessita da mãe, do pai ou de alguém muito próximo, que lhe ensine os primeiros passos, as primeiras noções de higiene e alimentação, de comportamento social, horários para que determinadas coisas sejam feitas, e assim por diante.

Mais tarde, já na escola, e cada vez mais cedo hoje em dia, aprender a sociabilidade, a coordenação motora, a ler e a escrever, entre outras coisas, diferentemente dos outros animais que a partir de determinada época, após o nascimento, já sabem agir comandados por seus instintos e por sua herança genética (não é necessário ensinar ao gato o seu miado, ou ao leão que ele precisa caçar, ou ao cavalo que sua alimentação é o capim).

Até aqui, tudo bem. Mas o problema está em que, nesse processo de aprendizagem, muita coisa é aprendida de maneira distorcida, carregada de conflitos, de traumas e recalques que, mais tarde, ocasionarão bloqueios ou comportamentos indesejáveis para os padrões minimamente esperados em todos os níveis de convivência.

Por sermos seres sociais não há como vivermos isolados. Por sermos pessoas humanas precisamos viver o amor e a fraternidade. Paulo Freire, o educador, já afirmou: “Educar é um ato de amor”.

Podemos deduzir daí, como também concluir que, em educação, não há dicotomia entre educador e educando, entre pais e filhos, assim como não há felicidade sem o desenvolvimento adequado de nossa capacidade de nos relacionarmos com outras pessoas; não há “eu” aqui e “você” aí, mas NÓS, juntos, construindo passo a passo uma convivência, um crescimento que é uma relação inter-retro ativa, quando todos são beneficiados e crescem, modificam-se e reaprendem – Família, Escola e Sociedade.

Cada indivíduo vai mudando ao longo de sua vida, ao contrário dos animais. Alberto Caeiro nos diz: “O essencial é saber ver”.
Mas isso exige um estudo profundo, uma ‘aprendizagem de desaprender’. “Procuro despir-me do modo de lembrar o que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos…”. Eis o grande desafio de hoje – é muito bom ter pensamentos novos e inovadores, querer que as coisas sejam e aconteçam de um jeito diferente, que sejamos melhores amigos, melhores profissionais, mas como conseguir isso sem tirar os velhos pensamentos da cabeça e os velhos hábitos de nossa prática?

Como nas revoluções industriais havidas anteriormente, quando o mundo foi transformado radicalmente a partir de 1700, para crescermos no cenário atual, necessitamos inovar. Precisamos criar um ambiente que incentive o espírito empreendedor e a criatividade.
O atual cenário educacional força-nos a “desconstruirmos” a nossa escola tradicional, ou seja, as instituições de ensino precisam estar dispostas a descartarem o velho, se quiserem construir o novo.

Agora, embora a prática continue a mesma, pela primeira vez, de forma concreta e não apenas genérica, a lei “manda” usar uma ferramenta construída pela teorização do planejamento nas últimas décadas: fala, timidamente, em “proposta pedagógica”, mas isso permite que entendamos a necessidade de termos, em cada instituição, um projeto político-pedagógico.

Isso pode, contudo, ser motivo de frustração, pois as ferramentas costumeiras podem sobrepor-se ao planejamento e assim, toda a construção, toda a busca, toda a paixão das pessoas envolvidas, terminar como tentativas vãs, que aumentarão o desânimo e a desesperança.

Que ‘rosto’ da educação queremos estampar para a geração atual? Rubem Alves responde-nos, comparando-nos a um casarão antigo, que após muitas demãos de tinta já não exibe mais as suas origens, e conclui: “O rosto? Perdido. Máscara de palavras. Quem somos? Não sabemos. Para saber, é preciso esquecer, desaprender.”

Para que algo realmente novo aconteça, precisamos aprender a partir de um novo ponto, com uma nova visão, criando novas perspectivas, embasados apenas na experiência que norteia os novos rumos.