Dia a Dia

Ansiedade Por Uma Resposta

POR HÉLDER COSTA PEREIRA

26 de Maio de 2021

Semana passada, recebi uma coisa rara: me chega através dos Correios uma carta muito bem escrita à mão do Sr. Ovidio, morador na capital São Paulo, amigo do meu filho Cleyton. Era um comentário sobre meu livro “Proseando”, carta essa que guardarei com muito carinho!

Foi-se o tempo das cartas escritas à mão e enviadas pelos Correios. Nos dias atuais, numa era em que a tecnologia vem devorando os costumes antigos e facilitando a vida de todos nós, numa comunicação rápida e instantânea através de e-mails e outros aplicativos que temos neste mundão virtual, seria até estranho postar cartas a alguém escritas a punho. Há algumas décadas, a comunicação se dava através de carta falando de amor, amizade, saudades, agradecimentos, mostrar o que é ser romântico, se declarar, coisas que aconteciam quando se namorava a distância.

Cartas de amor são escritas não para dar notícias, não para contar nada, mas para que as mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel” (Rubem Alves). Essa preciosidade, o hábito de se comunicar por cartas, considerado por muitos como um tesouro inestimável, está se tornando raro, se perdendo nessa plena era digital.

Encontrar alguém nesta correria do nosso dia a dia, ter tempo para sentar, procurar um papel especial, pegar lápis ou caneta, redigir caprichando na caligrafia, colocar num envelope personalizado, e ir até uma agência de correio é uma tarefa difícil. Vivendo a era do celular, do e-mail… Ninguém tem mais paciência para escrever, para se comunicar e ficar dias esperando a resposta, e assim as cartas vão se tornando coisas do passado.

Mas nenhum comunicado através de um e-mail não nos dá a emoção de quando recebíamos uma carta escrita a punho, ali sabíamos que alguém dedicou algum tempo pensando em nós. Revirando meu pequeno museu de antiga papelada, onde estou sempre a viajar nesse tempo de saudade, lá encontrei uma carta muito bem escrita á mão, dirigida a mim ainda em minha juventude, escrita em cor verde (cor da esperança), selada pelo correio. A remetente era minha namorada, que anos depois se tornou minha noiva e esposa. E nesse 22 de maio, ou seja sábado passado, com a graça de Deus chegamos as nossas Bodas de Ouro!

As cartas escritas à mão eram bem diferentes dessas que se vê pelas redes sociais, dessa geração apressada, colocando para iniciar um papo uma letra, economizando palavras e deixando a frase incorreta. E lá ia ela, escrita à mão, com o selo colocado no canto superior do envelope! Ia viajar, levando dentro um papel cheio de palavras com diferentes formas; falando de amor, mudança, trabalho, notícia de família, marcando encontro e outros inúmeros assuntos. Mesmo que demorasse a chegar ao destino, essas escritas á caneta ou a lápis eram responsáveis por manter as pessoas informadas sobre algum acontecimento, era um meio carinhoso de nos comunicar com pessoas mais chegadas. E como era bom e emocionante receber uma correspondência, ainda que ficássemos dias a dias esperando por uma resposta! E de forma inesperada era ainda mais surpreendente!

As cartas já inspiraram compositores, cantores, poetas… “Obrigado pela flor que mandaste, dei-lhe dois beijos como se fosse a ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma.” (Machado de Assis a Carolina de Novais em 1869.) “Não imaginas as saudades de ti que sinto amorzinho, faz o possível por gostares de mim a valer, por sentires os meus sofrimentos, por desejares o meu bem estar; faz, ao menos, por fingires o bem. Muitos beijos, do teu, mas muito abandonado e desolado.” (Fernando Pessoa a Ofélia Queiroz em 1920.) “Escrevo – te estas mal traçadas linhas meu amor, porque veio a saudade visitar meu coração” (Renato Russo).

Por mais que o e-mail, as redes sociais e essa era moderna do celular sejam mais práticos, nada dessa tecnologia substitui a emoção, a sensação mágica de receber uma esperada ou inesperada carta, ao abri-la e ler, é como ouvir a voz da pessoa que escreveu!

Enfim, é pena que esse hábito de escrever cartas e postar tornou-se raridade, nos eliminando a ansiedade de ficar esperando vários dias por uma resposta trazida pelas mãos do carteiro! Tornou- se raridade, mas semana passada eu vivi a alegria de receber uma! É o tempo passando e a gente “Memoriando”!