Dia a Dia

Ano novo, vida nova?

JOEL RENNÓ JR

7 de janeiro de 2022

A questão temporal, embora se constitua basicamente por um novo calendário e cronograma, acaba sendo um fator psicológico positivo nas vidas de muitas pessoas.
Muitos se sentem motivados pelo início de um “novo ciclo” e prometem a si mesmo uma nova mudança de atitude e postura, buscando um projeto de vida que pode levar a transformações. Procuram focar no presente e no futuro esquecendo mágoas ou dores do passado.
Mas o que efetivamente nos leva a mudanças reais e não a novos ciclos com velhos hábitos e tristezas?
São questões que envolvem tanto aspectos psicológicos individuais e de personalidade, quanto também coletivos e relacionados à educação, valores sociais e culturais. A magnetização e escravização por um movimento de manada da sociedade ditador de regras e costumes pode gerar também decepções.
As pessoas muitas vezes não legitimam seus erros o que não gera um aprendizado. Precisamos ter o bom senso, a flexibilidade mental e a humildade para um reconhecimento de atitudes procrastinadoras ou de fuga que nos impedem da adoção de medidas saudáveis e equilibradas em nossas vidas.
O comportamento social também é importante. Pessoas altruístas, empáticas e generosas tendem a ser mais felizes e completas. E isso se reflete em suas vidas com mudanças construtivas e que transformam seus objetivos puramente materiais em algo com dimensão e completude bem mais abrangentes. Precisamos dar um significado real e permanente ao nosso efêmero ciclo vital.
É fundamental ter um propósito de vida que tenha um significado amplo de existência e que possa deixar um legado positivo, seja modesto ou grandioso, nas vidas das pessoas. Fazer a diferença nas vidas dos outros, inclusive em nossas profissões, nos torna mais felizes e completos.
Quando traçamos determinadas metas, precisamos começar pelas mais simples e exequíveis. Não adianta começar com muita “sede ao pote” e não concretizar nada. A confiança pode vir de forma gradual e de acordo com as nossas pequenas conquistas e dentro do nosso referencial.
Pessoas maduras e que se conhecem bem não miram ou invejam as conquistas dos outros. Ser livre e autossuficiente requer discernimento para que não caiamos em um ciclo neurótico de competição que dissipa as boas energias e nos deixa exaustos. Alguns se comparam tanto com os demais que acabam cometendo o sacrilégico de própria negligência pessoal.
Portanto, meus queridos leitores, espero que em 2022 possamos, em primeiro lugar, buscar as transformações internas tão necessárias para daí sim conseguirmos atingir todas as outras metas materiais e muito mais acessíveis.

JOEL RENNÓ JR é Ph.D em Ciências, professor colaborador médico do Departamento de Psiquiatria da FMUSP e diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-USP).