Dia a Dia

Amiga da onça

POR KAMILA COSTA CRUVINEL

23 de abril de 2021

No município de São Roque de Minas, Região da Serra da Canastra, todos conheciam dona Vitória. A senhora de oitenta anos tinha mais disposição que muitas moças de vinte. Caminhava todos os dias pelas redondezas de seu sítio. Certa vez, achou, embaraçado no meio do capinzal, um filhotinho de onça. Era tão pequeno e frágil que mais parecia um filhote de gato. E teria acreditado ser mesmo um gatinho não fossem as pintas no seu pelo. Com muita pena, levou-o para casa e o alimentou, usando uma velha mamadeira do seu bisneto.

Foram anos em que dona Vitória fazia o almoço mais cedo, só para não deixar a oncinha passar fome. A Gatinha, nome carinhoso que a senhora lhe dera, vivia de barriga cheia. Todos os dias, antes mesmo de seu marido almoçar, a velhinha levava quatro panelas de comida até uma cerca de arame farpado, distante um quilômetro de casa. E assim, a onça se acostumou. Passaram-se anos e elas continuavam amigas.

Perto do Natal, dona Vitória ficou doente e precisou ser levada às pressas, para o hospital da cidade mais próxima. Então, ela fez seu marido prometer que continuaria a alimentar sua gatinha, nos mesmos horários e com a mesma quantidade de comida.

De início, o homem atendeu ao pedido da esposa. Alimentava a “gatinha” todos os dias. Com o passar do tempo, ele via que a comida pronta deixada por sua esposa estava acabando. As latas de carne se esvaziaram, os torresmo acabaram, a carne pendurada acima do fogão a lenha, também. Então, ele começou a diminuir a quantidade, aos poucos. Assim, a cada dia, ele racionava cada vez mais, a alimentação da onça.

Ele pensava que estava dando certo e que logo ela se acostumaria e poderia caçar seu próprio alimento. De fato, ele percebeu que as galinhas estavam sumidas, os porcos no chiqueiro, também. Deu falta até de um bezerro dos grandes. Com raiva, o homem decidiu que não ali[1]mentaria mais a onça, rompendo o trato com sua mulher. E disse ainda aos filhos que, se achassem ruim, iria caçar o bicho e fazer dele um cobertor.

Depois de dois meses, dona Vitória voltou para casa. Cheia de saudade de seu sítio e de sua “gatinha”, nem pensou em passar pela casa dos filhos. Foi direto para sua casa, na roça. Quando abriu a porta, dona Vitória teve que ser levada ao hospital novamente. O que ela encontrou foi o corpo do marido estirado no quintal e sua onça faminta, aproveitando um último resto de comida…

KAMILA COSTA CRUVINEL faz parte de um grupo de alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, que no ano de 2018, integrando um grupo organizado pela escritora Maria Mineira, com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas lançou em 2019: “ Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: mariamineira2011@yahoo.com.br