Dia a Dia

Agressividade Energia construtiva ou destrutiva?

DÉCIO MARTINS CANÇADO

5 de julho de 2022

A agressividade é parte integrante de nossa personalidade. Em nossa parcela irracional, agimos instintivamente, dotados que fomos pela mãe natureza de mecanismos para sobrevivência, ativados por hormônios e reflexos, automatizados por milhões de anos de evolução, quase sempre em ambiente hostil, competitivo e predador.

Existem pessoas que, por nada, fazem uma ‘tempestade num copo de água’, não sentem alegria de viver, encontram dificuldades na convivência, são eternas insatisfeitas. Na maioria das vezes, sempre levam os acontecimentos, especialmente os ruins, para o lado pessoal, como se tudo e todos estivessem conspirando para sua infelicidade.

No ambiente escolar, alguns professores e alunos trazem essa bagagem negativa de sua formação para dentro da sala de aula, o que, fatalmente, acaba gerando conflitos desnecessários e atrapalhando o processo ensino-aprendizagem, que deveria ser alegre e descontraído. Também na sala de professores, habitualmente, ocorrem vazões dissimuladas de agressividade, através de comentários negativos ou maldosos, segregando turmas, alunos ou colegas de profissão.

Outras pessoas, entretanto, enfrentam as maiores dificuldades no dia a dia, com segurança e maturidade; sabem investir na vida, vivem bem, respeitando as diferenças e construindo relacionamentos saudáveis e duradouros.

Entre esses dois polos, está a agressividade, comum ao homem e aos animais, pois é o impulso biológico de ataque e defesa, uma força interior necessária à vida, que poderá tornar-se construtiva ou destrutiva, dependendo do tratamento que lhe for dado.

Quando bem orientada, a agressividade constitui um recurso indispensável no exercício da autoavaliação, na afirmação do valor pessoal, no sentimento de autoestima, no relacionamento sexual e na capacidade de envolvimento emocional com outras pessoas. Caso contrário, será uma energia negativa, que poderá ser acionada contra tudo e todos.

A escola tem sido palco e vítima de ações que refletem a agressividade mal-educada, mal conduzida, como têm noticiado, ultimamente, os órgãos de imprensa, quando alunos agridem professores e colegas, sem o menor respeito pela autoridade e pela pessoa humana. Recentemente, por ter sido alvo de gozações de colegas, um jovem compareceu à escola portando uma arma de fogo e assassinando friamente diversos colegas. Poderíamos, simplesmente, culpar a televisão, a internet ou os filmes de ação que, na realidade têm lá sua parcela de influência, mas o problema começa ainda ‘no berço’.

Desde os primeiros dias de vida, através do choro, a criança já começa a revelar sua ‘agressividade’. O choro vai tendo significações diferentes e, se os pais prestarem atenção, irão perceber a diferença quando a criança chora porque algo lhe desagradou, quando está com fome, se necessita de alguma coisa ou se sente dor. Se não receber a devida atenção em suas manifestações, seu choro vai tomando forma de agressividade negativa, até o ponto de se transformar num padrão cristalizado na escala do seu desenvolvimento, que permanecerá, mesmo quando ela já souber falar, ou até a adolescência. Tal criança aprende que, para conseguir alguma coisa, ou se livrar de algo que a incomoda, deve chorar, berrar e, assim, demora mais para amadurecer suas emoções, encontrando sérias dificuldades de relacionamento com seus semelhantes. Será incapaz de decidir por si mesma. Tudo o que sabe fazer é espernear, gritar e esmurrar a parede; ou o rosto de alguém que contrarie sua vontade, quando já estiver crescida.

Quando a agressividade é bem orientada, a criança, mesmo que ainda não fale por palavras, manifesta suas reações ante os acontecimentos através de gestos, por exemplo, um meneio de cabeça para concordar ou discordar.

Sabe-se que uma educação altamente repressora, proibitiva em tudo, favorece para que a energia vital da criança seja externada de forma negativa, o que não quer dizer que a família e a escola não devam colocar os limites necessários, proporcionando uma educação de qualidade, visando a um futuro mais equilibrado e feliz.

Faz-se necessário e urgente que, no mundo de hoje, a Família e a Escola tomem a iniciativa de canalizar as reações de suas crianças e adolescentes para a prática de esportes, para o bem, o respeito, a solidariedade, desenvolvendo posturas éticas, canalizando as potencialidades dos mesmos para uma convivência pautada no respeito às diferenças entre as pessoas.