Dia a Dia

A paz que nós queremos

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

23 de fevereiro de 2021

Este momento conturbado, tanto da vida nacional quanto mundial, quando estamos impotentes frente a esta famigerada pandemia, ainda temos que suportar os escândalos políticos que permeiam nossa vida de ‘pobres mortais’. Relembrando os episódios recentes que nos fizeram perder o sono, escândalos do tipo ‘mensalão’, primeiramente o ‘nacional’, o ‘mineiro’, com o tão propalado ‘mar de lama’ na política, tanto brasileira quanto de outros países da latina América do Sul, dentre outros; das guerras e guerrilhas nas terras muçulmanas, as terríveis bandalheiras que se misturam às manifestações pacíficas contra uma porção de coisas erradas que se avolumam neste Brasil varonil, bombas explodindo pelo mundo, traficantes enfrentando a polícia do Rio de Janeiro e inocentes sendo mortos por balas perdidas; a eleição nos Estados Unidos, com direito ao violento protesto no Congresso. entre outras coisas, geram a insegurança que reina dentro das próprias casas, deixando-nos bastante angustiados e apreensivos, aqui neste interior das Gerais.

Pessoas desequilibradas entrando em escolas e atirando em crianças inocentes não era tão ‘comum’ até bem pouco tempo. Ex-marido, e ex-esposa ciumento matando friamente o (a) ex, ninguém ousava imaginar até então. Aluno enfrentando e, até mesmo, agredindo professores dentro da escola era ficção. O que será que está acontecendo com o mundo de hoje? Será que podemos atribuir a culpa dessas mudanças a alguém, a alguma entidade?

Se analisarmos um pouco, se procurarmos, com certeza, vamos encontrar alguns culpados por esse estado de coisa, mas não é só isso que interessa neste momento de transição por que estamos passando. Comecemos por refletir sobre nós mesmos, nosso modo de agir e reagir, em casa, no trânsito, no lazer ou no trabalho. A falta de perspectiva quanto ao futuro, de bons exemplos por parte de quem seria esperado, de espiritualidade e fé, trocadas pelo imediatismo e pelo consumismo.

Mas será que somente notícias ruins é que fazem parte de nossas vidas? Os fatos positivos não contam? É preciso muita calma nessa hora, como é habitual se dizer. Deixemos de lado o excesso de pessimismo e vamos nos lembrar de que, todos nós, estamos sujeitos a dores, mas também a alegrias; a sofrimentos, a esperanças; a preocupações, e a realizações. É essa dualidade de acontecimentos e de sentimentos que nos faz crescer, que nos faz merecer nossas conquistas e não nos permite esmorecer e acomodar.

A falta de paz nos acomete de diversas maneiras, e, na maioria das vezes, provém de nossas próprias atitudes. Reflitamos com Padre Zezinho: “É fácil usar o estilingue. É fácil descer a lenha no casal irresponsável. O difícil é ir procurá-lo e oferecer ajuda. É fácil falar da menina grávida que não sabe nem quem é o pai. O difícil é ouvi-la e ajudá-la a enfrentar o drama de seu erro. É fácil rir dos chifres do marido traído e falar da mulher dele com risos e piadinhas engraçadas. O difícil é ajudar os dois a se amarem de novo sem mágoas ou novas traições”. “É fácil falar do padre, do pastor, do papa, do governante, do político, do vizinho… Damos uma estilingada com a língua e, pronto… está quebrada a sua luz. Poucos podem dizer que não atirarão pedras em alguém que já está por baixo.

Se quisermos paz em nossa vida, se desejamos paz nos ambientes onde vivemos, o primeiro passo deverá ser dado por nós mesmos. Não se atira apenas com uma arma na mão. Existe também o ‘tiro’ que fere ou, até mesmo, pode matar, que é dado com a língua. Esse quase ninguém percebe, nem mesmo quem o dá, mas que pode acabar com a vida de uma pessoa. E ainda falamos de paz?

Antropólogos europeus observaram que, em tribos africanas, as pessoas e as famílias viviam num ambiente de paz, equilíbrio e felicidade. Pesquisaram as causas desse fenômeno e descobriram que as crianças ficavam presas às mães, num contato físico direto e constante, enquanto estas trabalhavam. Havia a segurança afetiva nas crianças.

Já na sociedade moderna, as pessoas e as famílias vivem inquietas, inseguras, desequilibradas, em conflitos constantes, não têm paz nem são felizes. Esses fatos são visíveis e palpáveis, não há necessidade de muito esforço para percebê-los. Quais são as causas de tantos desentendimentos, brigas e violência?” nos diz Dom Aloysio Penna.
Podemos apontar diversas causas, mas, “como na tribo africana, a primeira e imprescindível condição para a paz é a segurança humano-afetiva”.

Hoje, as famílias se preocupam muito com a formação intelectual dos filhos. Dão-lhes a oportunidade de fazerem cursos de línguas estrangeiras, informática, frequentarem academia de ginástica, etc. Tudo isso ajuda, mas não basta. Onde está a preocupação com a formação humano-afetiva e espiritual dos filhos?” indaga Dom Aloysio.

A família deve preocupar-se em educar os filhos, também para a Paz. Quanta desarmonia, gritaria e desrespeito às diferenças acontecem diariamente nos lares modernos! Também nas grandes empresas e nas escolas têm aumentado a preocupação e as ações em favor do resgate da humanização do convívio, do respeito às diferenças individuais e coletivas, para que haja maior harmonia entre as pessoas. São muitos os fatores que contribuem para a falta de paz, mas é urgente buscarmos, dentro de nós, os meios e as forças necessários para revertermos esse quadro porque, mais cedo ou mais tarde, seremos atingidos pelos estilhaços de nossas próprias ações.