Dia a Dia

A inveja. Visão psicanalítica kleiniana

HÉLIO DE LIMA JÚNIOR

8 de abril de 2022

A inveja foi um estudo marcante na teoria psicanalítica Kleiniana. A brilhante psicanalista, Melanie Klein, da Escola Inglesa, foi uma mulher adiante do seu tempo, que revolucionou a técnica da psicanálise no trabalho com crianças, ampliando o alcance desta abordagem aos estados primitivos do psiquismo humano. Pois Klein expôs “que invejar é desejar de forma muito forte, a ponto de querer possuir o objeto amado, podendo chegar até o ponto de confundir-se com o amado, desejo de ser a pessoa amada, fundir-se a ela”. Em francês a palavra inveja é: “envie”, significa o desejo de ter, de possuir, de fazer algo de modo igual.
Melanie Klein faz a distinção entre as emoções da inveja e do ciúme. Contudo, o ciúme baseia-se no amor e posse do objeto amado e à remoção de um possível rival, pertence a relação triangular, pois a inveja é mais primitiva, sua relação é dual, o sujeito inveja o objeto por alguma posse ou qualidade.
Klein explica “que na relação mãe e bebê, nos seus primeiros meses de vida, o vínculo da criança é com o objeto parcial, por exemplo, o seio materno, que é fonte de vida, de experiência boa, gratificação, alimento e amor. Entretanto, quando o objeto parcial introjetado pelo bebê está carregado de ansiedade, agressividade e voracidade, nota-se que o referido objeto ideal não poderá ser mantido, é atacado e danificado, dando origem à inveja, que conduz a confusão entre o bom e o mau, onde o bebê não consegue manter separados o amor e o ódio”. O recém-nascido vive num mundo de extremos, povoados de objetos bons e objetos maus, vivendo num embate permanente. Na teorização de Melanie Klein, se evidencia a intervenção da pulsão de morte, impulso voltado contra si mesmo, ameaçando a continuidade existencial, que se transforma na base do sentimento de destrutividade; a pulsão de morte que dá sustentação à inveja. A pulsão de vida cuja tendência conduz a integração do aparelho psíquico, expressando o sentimento de amor, colocando a energia sexual nas pessoas e no mundo.
A inveja é um sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta algo desejável – sendo que o impulso do invejoso visa tirar este algo e estragá-lo. O invejoso sente-se bem com o infortúnio do outro. A voracidade, a inveja e a ansiedade persecutória são interligadas, intensificam-se inevitavelmente, umas às outras. Observa-se que a inveja excessiva aflora o sentimento de culpa, pelas ausências, danificações ou morte do objeto perdido, sentimento de haver estragado o objeto bom, no caso o seio nutridor.
O contrário da inveja é a gratidão, pois o sujeito grato o ego aumenta suas tendências restituitórias. Todavia, a satisfação é a base da gratificação, da realidade da criança e da generosidade, onde emerge o amor, atuação da pulsão de vida. Porém, uma criança saudável é aquela que consegue reparar os danos executados ao seu objeto amado, sublimando, canalizando a energia sexual para algo produtivo, criativo no mundo externo. A ambição é uma forma sublimada da inveja, que é socialmente aceita.
Enfim, a dor pode ser modificada quando a pessoa ferida começa ser escutada com atenção, bem como desenvolver a interlocução que permite mudar algo na compreensão dos acontecimentos. A mãe é capaz de transformar os aspectos perturbadores em algo tolerável, promovendo o crescimento e desenvolvimento emocional da criança. Durante a análise, esta função é exercida pelo analista que por meio de suas interpretações, estimula o paciente a pensar e fazer novas observações e investigações sobre sua maneira de sentir o mundo e as pessoas. As perdas quando aceitas e elaboradas conduzem ao crescimento, à maturação, à ampliação de perspectivas e à expansão das possibilidades. Toda análise kleiniana caminha no rumo de ampliar a capacidade do sujeito reparar criativamente e agradecer. Portanto, a gratidão e a reparação são os grandes curadores das doenças da alma.

HÉLIO DE LIMA JÚNIOR. Psicólogo, Psicanalista, Mestre em Psicologia Social Aplicada e Psicanálise. Doutor em Saúde Coletiva em Itaú de Minas e Passos. E-mail: [email protected]