Dia a Dia

A Culpa é da Vovó

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

25 de novembro de 2021

Quando eu nasci meu avô já era velho, e não era porque ele media mais de um metro e meio de altura, mas porque ele era aposentado.

O trabalho que ele exerceu por trinta anos no serviço público foi incorporado por nós ao seu prenome; para as netas, o nosso avô não era só o Vovô Chico, mas o Vô Chico Fiscal de Rendas III – função ostentada no seu holerite.
Com certeza, a aposentadoria não lhe caiu nada bem, pois tinha tempo de sobra para fantasiar coisas péssimas sobre a própria vida, e o ditado popular “cabeça vazia, oficina do capeta” vestia-lhe como uma luva.

Embora a sua vida acontecesse na frente de uma televisão, não eram raras as vezes em que o encontrávamos esgotado fisicamente por lutar consigo mesmo, guerra sempre vencida pelo seu temperamento. Minha vó, espectadora habitual desse duelo diário, apenas dizia: “O Chico sofre dos nervos”.

Não me lembro do som de sua risada e nem do timbre de sua voz, esta, principalmente, porque mais parecia uns resmungos ao estilo Zé Busca- pé sussurrando para o mundo a sua insatisfação com a vida, sem, contudo, esclarecer os motivos de seus desgostos; e aquela porque era inexistente.

O Vô Chico Fiscal de Rendas III ralhava conosco por pequenas coisas, como quando devorávamos as suas balas toffees escondidas no maleiro do guarda-roupa e que ele tinha o costume de sempre chupar para enganar o paladar maquiado pela nicotina.

Ele era um senhor imprevisível, no mesmo dia em que nos regulava doces, cedia aos nossos apelos juvenis nos presenteando com uma calça jeans “de marca” da Loja Terra Sã. Ora, gritava conosco por nada, ora, nos divertia fazendo micagens por trás de alguma vista indesejada que aparecia na casa dele.

Mas, de todas as lembranças que tenho do Vô Chico Fiscal de Rendas III a que mais me impacta é lembrar dele chorando por medo de adoecer.

Num dia ele cismava que a sua doença estava nos pulmões, agarrava um lenço branco e tossia o dia todo nele, no outro dia, o problema estava na cabeça, então amarrava uma toalha molhada na careca e chorava que nem menino, e quando manicava que era o coração que não estava bem, esfregava as mãos freneticamente na barriga chorando e lamentando: “é uma ruindade, é uma ruindade”. Era como se quisesse retirar uma parte de si.

Penso que se fosse hoje essa ruindade teria o nome de Síndrome do Pânico e a velhice dele seria bem diferente e as nossas experiências com ele também.

O meu avô viveu por muitos anos, não ficou doente do pulmão, nem da cabeça e muito menos do coração, morreu foi de velhice mesmo e nos deixou de herança familiar esse medo de adoecer.

Herança mais besta, queria mesmo era ter herdado o dom musical do pai dele, o meu bisavô Laninho (regente do Coral da Ventania),pois quem canta os males espanta, desculpem-me pela frase clichê, mas encaixou aqui e não resisti.

Infelizmente, essa herança rende frutos até hoje, dizem que eu e as minhas irmãs quando estamos sem programa no sábado à noite, fazemos um tour pelos hospitais da cidade. É que para os herdeiros desse infortúnio estar perto de alguém de branco revigora o corpo e a alma.

Uma das “poucas” vezes (na cabeça do hipocondríaco sempre serão poucas) em que procuramos um hospital com o meu sobrinho Gabriel foi porque observamos que ele(na época com cinco meses) estava movimentando os bracinhos de forma repetida e cadenciada. Na minha mente e na das minhas irmãs piscava em neon a palavra: convulsão, convulsão, convulsão. Chegamos afoitas no hospital e, depois de toda a burocracia que para o ansioso dura uma vida inteira, entramos no consultório.

O pediatra olhou para os movimentos do bebê inquieto, examinou daqui, mexeu dali, revisou acolá e com o semblante esquisito disse para minha irmã: “Mãe(é assim que o povo de branco chama a gente), o seu bebê é muito forte”, pensei que ele estivesse usando a tática do “gato subiu no telhado”, e logo iria desembuchar o problema neurológico do menino, gelei; e o doutor continuou com a boca trêmula: “o seu filho está com cinco meses e nessa idade as crianças estão desenvolvendo a sua parte motora, então é natural para um bebê mexer os bracinhos e as perninhas, não existe nada de anormal com o seu filho, ele está apenas crescendo e se desenvolvendo.”

Então, percebi que a cara esquisita do médico era para despistar a vontade de rir daquela família “sem noção”, para o bebê ele não receitou nada, e para nós, por compaixão e quebrando o protocolo, receitou uma dose cavalar de Diazepam.

Hoje, a minha dose é dobrada, e não tenho dúvida alguma, a culpa é do vovô.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com