Dia a Dia

A Audiência

Patrícia Lopes Pereira Santos

19 de Maio de 2022

A Escrevente Judiciária abriu a porta da sala de audiências e anunciou com voz forte no corredor do Fórum: “Primeiro de abril, de dois mil e um, dezessete horas e um minuto, audiência de investigação de paternidade do processo nº 000000, Senhor Jean Pierre Enoque da Silva”.

O perfume amadeirado da testemunha tingiu a sala de audiência; tal e qual um suricato, magrelo e posudo, ela dirigiu-se para a cadeira indicada; ao ladear o réu cabisbaixo, Jean Pierre empertigou-se numa atitude médica, típica dos que acreditam possuir o poder sobre a vida do outro.

O réu, um senhor de seus quase oitenta anos, aparentava rendição; ocorre que o olhar cabisbaixo e os ombros caídos do idoso eram inversamente proporcionais a sua conta bancária atual e à libido na juventude.

Em razão disso, ele era freguês das ações de investigação de paternidade, e porque saiu vencido em uma delas, várias mulheres da sua pequena cidade tentavam mês a mês a sorte, para quem sabe, garantir o futuro de seus filhos.

A Dra. C. era sua companheira contumaz nos corredores frios do Fórum; ela era cinza no vestir e no falar, mas transparente nos seus propósitos, sempre defendendo o seu cliente com a ética dos leais e com a técnica dos excelentes.

O outro lado da mesa era puro contraste: o suposto filho e a mãe demonstravam desconforto com o ambiente formal, as vestes sóbrias eram incapazes de camuflar o espírito da família, que envolvia qualquer coisa que favorecesse ganhos financeiros fáceis; eles pouco se importavam com a opinião alheia, exceto, naquele momento, a do Juiz.

Por sua vez, o advogado deles, já tarimbado na arte de tentar ludibriar o Poder Judiciário, estava confortável, enroscava os dedos ora na barba amarelada pela nicotina, ora nos cabelos desalinhados e sem corte; a gravata curta e a camisa com os botões frouxos pela barriga avantajada compunham o conjunto medonho.

Após a testemunha ser advertida sobre as consequências do falso testemunho, iniciou-se a habitual qualificação, até que a escrevente perguntou-lhe a profissão.

E, ajeitando o casaco, ele respondeu: “Sou Peradodepareesi”. Sem nada entender, a escrevente insistiu educadamente: “Como? Qual é a sua profissão?” E ele, com impaciência, informou: “Sou Peradodepareesi”.

A escrevente olhou para o Juiz, que olhou para o Promotor, que abriu as mãos numa atitude de quem não fazia a mínima ideia do que seria a tal profissão de “Peradodepareesi”

Daí, foi a vez de o Juiz repetir a pergunta, mas em vez de ouvir uma resposta, recebeu uma nova pergunta:
”Doutor, o senhor já viajou alguma vez na sua vida?”
E o Juiz:
“Sim, claro”
“E quando o senhor viajou, viu alguma obra na estrada?”
Sim, já vi muitas estradas em obras”.
Então, doutor, sou eu quem fica segurando as placas e mandando os carros “Seguir ou Parar”; é isso que eu sou, peradodeparesi”
O Juiz ditou para a escrevente:
“Profissão da testemunha: “Operador de Pare e Siga.”

Resolvida a pendência, a testemunha começou a narrar a grande história que comprovaria a culpa do réu; contou, num português ensaiado, que em dia, hora e lugar específicos ele tinha visto tudo.

E o Juiz perguntou: O senhor viu tudo? Mas…Tudo o quê?

E, quase destroncando a língua, a testemunha disse, de maneira decorada: “Doutor, eu vi esses dois aí (apontando o dedo para os litigantes), dentro de um carro, bem pertinho da beira da estrada em que eu trabalhava. Eu levantava a placa do “Siga”, e enquanto o trânsito corria, eu parava para ver a pouca vergonha dentro do veículo embaçado. Tenho certeza, Doutor, eram eles dois, e, naquele dia, fizeram esse moço aí, continuou (apontando o dedo para o suposto filho).

E, antes de continuar com os detalhes daquela narrativa “bem engendrada”, o Juiz sinalizou para a testemunha silenciar; ele folheou os autos processuais de um lado para o outro, parou em determinada folha, conferiu na tela do computador e balançou a cabeça numa atitude de descrédito, que se transformou em indignação.

O Senhor Jean Pierre Enoque da Silva se assustou, a farsa estava descoberta, não havia carro embaçado, não havia pouca vergonha e nem como consequência um suposto filho, não havia nem Jean Pierre Enoque da Silva, isso porque à época dos fatos a testemunha nem nascida era.

O Juiz tomou as providências cabíveis e enquanto a testemunha era escoltada para fora da sala de audiência pelo crime de falso testemunho, ele repetia sem : “Sou peradodepareesi, sou peradodepareesi”,que aliás, era a única verdade de toda a história.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com