Dia a Dia

162 Anos de História e Progresso

13 de Maio de 2020

Em uma de minhas caminhadas, de boné e máscara, me prevenindo dessa pandemia que estamos enfrentando, ao passar pelo Jardim Planalto, subi até aos pés do Cristo. Fiz minhas orações, e de lá, fiquei a admirar as mudanças aceleradas de nossa cidade onde até pouco tempo atrás, o Lar da SSVP (Asilo), estava isolado, no meio de um mataréu. Agora, se avizinha com novos loteamentos, casas, mansões, comércio, indústrias, cemitério, hotel, rodoviária, fórum, prédio da Ameg, grandes supermercados, Campus da UEMG… E lá do alto, pela imaginação, cheguei a visualizar aqueles longínquos anos, quando tudo começou em nossa cidade.

Passos se tornou cidade, ainda sem a chegada da luz elétrica, dos transportes rodoviário e ferroviário, fumaça do fogão a lenha saindo pela chaminé, e ao anoitecer lamparinas e candeias eram acesas para iluminar as casas.

A história é longa, difícil de entender e escrever, com algumas escritas desencontradas, deixadas por historiadores do passado. Mas é possível reviver buscando na memória, o cheiro da infância de um menino que um dia tornou se adulto e hoje é um idoso por essa vida afora.

Á noite, na cozinha, acontecia o encontro da família: fogão de lenha aceso, barulhinho do fogo, bule esmaltado na chapa quente, caldeirão de ferro cozinhando feijão e pipoca pipocando na panela. Geladeira e fogão a gás eram artigos de luxo, não se conhecia televisão, e pelo rádio se ouvia notícias, músicas, novelas radiofônicas, futebol e programas humorísticos.

Pela madrugada, padeiros em grandes cestos no ombro, indo de casa em casa colocando os pães ainda quentinhos em bonitas sacolas com o nome bordado e escrito “Pães” que ficavam nas janelas, ou nas maçanetas das portas, sem perigo de roubo.

Pela manhã, caminhões leiteiros chegando e trazendo o pessoal da roça para fazer suas compras e afazeres na cidade. De longe se ouvia o chiado dos carros de bois, lenheiros vendendo sua carroça cheia de lenha, leiteiros a cavalo fazendo suas entregas nas casas, e oriundo das roças, carroças vendendo verduras, frutas, frangos, ovos, e ao som de uma buzina, era a carroça vendendo os miúdos de vaca e porco.

Pela decolagem dos grandes aviões com seus roncos agudos, do Campo de Aviação localizado atrás do Campo do Esportivo, pelo apito forte de trem, e pelas batidas do relógio da Matriz, o povo sabia as horas! Nas vendas, cervejas eram resfriadas em caixote com areia, nos açougues, o freguês saía segurando a carne pelo barbante, e a tarde, depois de uma janta gostosa feita no fogão a lenha nas pesadas panelas de ferro, em frente as casas, seus moradores sentavam para tomar a fresca e respirar um ambiente gostoso e familiar.

Nos meses de maio, junho e julho, faziam frio de “bater o queixo” agosto era mês de ventania, e em tempos de chuva, os homens se protegiam o calçado usando galochas. Telefone era de manivela preso na parede, policiamento na cidade era feito pelo cabo Silvano e outros poucos soldados que fazia o patrulhamento num velho jipe, o repicar dos sinos nas Igrejas anunciava algum acontecimento, missa em latim, Padre falando enrolado com os coroinhas a seu lado, e os fiéis cantando os cânticos “Queremos Deus, Bendito, Coração Santo”. Jovens de terno e gravata na Praça Matriz curtiam o “rela”, ou em um banco de mãos dadas, namorando sua amada.

Na Praça do Rosário durante o dia, entre chegadas e saídas das antigas Jardineiras, as pessoas com seus malotes e embornais aguardavam a orientação do D.G pelo serviço de alto falante o horário de seu embarque. Carros como: Fordinhos, Gordini, Aero Willis, Sinca Chambord, Vemaguetes, Jeeps, Motores, Lambretas, e bicicletas com farol circulavam pelo trânsito da cidade. A grande Barrinha, (hoje ocupada por um pequeno ginásio) era palco de circos, parques, barracas de grupo de ciganos e de grandes jogos de futebol.

O tempo passa rápido, tudo ficou longe, tão distante, e assim chegamos aos dias de hoje. Orgulhosos e engrandecidos por mais um ano dessa terra que eu tanto gosto e que antigamente já foi chamada de Arraial da Capoeira, Arraial do Senhor Bom Jesus dos Passos, Vila Formosa do Senhor Bom Jesus dos Passos e em 1858, há 162 anos, essa cidade aconchegante, onde há beleza, encanto e prazer de se viver, passou a ser chamada somente de Passos.

Viva Passos!
Viva seu povo!
Viva seus 162 anos!
E viva em Passos!