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A força da palavra: dignidade ainda que tardia

25 de abril de 2020

A pauta da crônica já estava definida para hoje, mas como o planeta gira, não há como não escrever sobre o tsunami causado pelo ex-ministro Moro, ontem, pela manhã. Seria assunto de uma coluna de língua portuguesa? Sim! Claro! Afinal, o que vimos está envolvido diretamente com linguagem, discurso e linguística. Eu assisti ao pronunciamento dele. Prestei bem a atenção nos usos linguísticos entremeados em seu discurso. Memórias discursivas foram expostas e nessa exposição, houve acusação. Mais de uma, inclusive. Nota: que inveja tenho dos países que estão preocupados apenas com a pandemia e que não possuem problemas causados pelo líder da nação!

Eu já falei disso nesse espaçoque é por meio da linguagem que criamos, transformamos e categorizamos o mundo. Estudar a língua, a linguagem, enfim, a comunicação humana, de forma adequada, deixa-nos mais atentos para a vida. Digo isso porque já vi muitos dizerem que fazer análise do que foi dito é puro mimimi, que estão cheios do politicamente correto, que quem fala algo inadequado não significa que pessoa pense daquela forma e que tudo não passa de brincadeira etc. Sinceramente, gostaria que tudo isso fosse verdade, mas não é. As palavras possuem força. Os nossos discursos, que, grosso modo, são as ideias que estão nas lacunas, nos entremeios, por trás das palavras, enfatizam, demonstram, apontam as nossas ações. “A boca fala sobre aquilo que o coração está cheio”, já disse Jesus Cristo.

No caso em questão, se uma pessoa que sempre pregou o discurso do ódio, da violência, da autocracia (mesmo em uma democracia), da misoginia e do desprezo pelas minorias sociais, não há como acreditar nela. Não é mimimi. É fato! Para aquele que acredita no contrário disso tudo, ou seja, na coerência, na moral, na dignidade, no bem, na religiosidade etc, deveria ficar muito atento aos estudos linguísticos-discursivos. Estudar retórica também ajuda muito. Do mesmo modo, conhecer os segredos de uma comunicação não-violenta é essencial.

“Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino”. Quem disse isso foi Carl Jung. Vale para a linguagem também. Nessa última quinta, dia 23/04, foi o dia do livro. Não há outro caminho melhor para o conhecimento que o preenchimento de nossas lacunas por meio dos livros. Todas as outras coisas são importantes, mas são complementares. E quanto mais eu leio, mais capacidade tenho de fazer as melhores escolhas, pois “as palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade”, como nos ensina Victor Hugo. Eu sou aquilo que digo. Ponto. Ajude-nos Cecília Meirelles: “Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência a vossa! Todo o sentido da vida principia a vossa porta: o mel do amor cristaliza, seu perfume em vossa rosa; sois o sonho e sois a audácia, calúnia, fúria, derrota…A liberdade das almas, ai! Com letras se elabora…E dos venenos humanos sois a mais fina retorta: frágil, frágil, como o vidro e mais que o aço poderosa! Reis, impérios, povos, tempos, pelo vosso impulso rodam…”. Que lição! Prestemos mais atenção em nosso coração e em nossas ações, pois eles mandam mensagens por meio de nossa linguagem. Isso é inevitável. Portanto, fiquemos atentos às comunicações prévias.

 

Prof. Dr. Anderson Jacob Rocha

Autor do livro: A Linguagem da Felicidade.