Cinema Destaques

Um ‘love story’ em estágio terminal

16 de outubro de 2021

Cena do filme ‘Ficaremos Bem’, com Stellan Skarsgard e Andrea Braein Hovig

Durante a elogiada passagem do drama familiar Ficaremos Bem pelo Festival de Berlim de 2020, sob o aplauso da crítica para a aspereza de sua narrativa, sua diretora, a norueguesa Maria Sodahl, hoje com 55 anos, já havia se recuperado de uma doença que, por pouco, não lhe custou a vida – embora tenha lhe deixado uma premissa para um filme. Durante o calvário para se recuperar, ela pensou em escrever a saga de uma paixão que teve o prazo de validade reduzido.

“Nicole Kidman vai estrelar uma refilmagem americana dessa história. É engraçado que a produtora do remake, que comprou os direitos, viu o filme em iPhone e se deixou tocar. É divertido ver que uma experiência de efeito catártico que pensei para as dimensões do cinema possa funcionar em outro suporte”, diz Maria, ao ser informada de que a autoanálise em forma de filme que dirigiu chegou ao Brasil via streaming, nas plataformas digitais Claro Now, Amazon Prime, Vivo Play, iTunes/Apple TV, Google Play e YouTube Filmes.

“O mundo audiovisual não é mais o mesmo. É cedo para saber se as pessoas ainda vão ao cinema, mas é bom que os filmes cheguem até elas de alguma forma”, observa.

Muito do que se vê em Ficaremos Bem saiu de suas memórias. É o caso da parceria no dia a dia entre ela e o marido, o também cineasta Hans Petter Moland (que filmou o cult O Cidadão do Ano e rodou seu remake americano, Vingança a Sangue Frio). Cuidadoso no período de sua convalescência, Moland inspirou a ideia de ela escolher um casal de artistas para protagonizar a love story em estágio terminal. Também foi oportuno para o processo criativo – que a diretora não vê como um exorcismo – tomar emprestado para a personagem principal uma peculiaridade da própria Maria: fazer aniversário em 31 de dezembro.

Para arrematar as similaridades entre fatos e ficção, a cineasta escalou o ator assinatura de Moland, o sueco Stellan Skarsgard, para viver o companheiro devotado – e devastado – de sua protagonista, Anja, interpretada pela atriz Andrea Braein Hovig.
“Há uma sequência do filme em que Anja devora comida, sob efeitos de esteroides que aumentam seu apetite. Essa sequência entrou ali para realçar o lado tátil do que eu experimentei, um sensorialismo excessivo, que demarca um apego desenfreado por tudo o que é sólido. A gente se agarra. E eu quis discutir isso numa história que celebra a luta de um amor para se manter vivo. Não poderia fazer um filme sobre o câncer e, sim, um longa sobre o querer”, diz Maria.

Conhecida nos festivais por Limbo (2010), rodado em Trinidad e Tobago, a realizadora trabalhou com o fotógrafo habitual de Lars von Trier, o chileno Manuel Alberto Claro, na busca por uma paleta de cores que traduzisse as angústias do casal Anja e Tomas (Andrea Braein Hovig e Stellan Skarsgard) nas festas de fim de ano. “O cinema escandinavo carrega um certo rótulo de sombrio, que vem de outras manifestações artísticas, como a nossa literatura. E, de fato, pelo frio, o Natal norueguês é mesmo monocromático.